• Categoria: baterista
  • 23.11.18

    Time is gone



                    Depois de tantos meses, pela primeira vez me permiti sentir sua falta. A data marcada no calendário me incomodou e me fez enxergar que o tempo, tão rapidamente, passou. Pergunto-me se você também se lembrou, se pensou em mim, se pensou em nós.
                    Eu estava montando a árvore de Natal, ouvindo as mesmas músicas natalinas de sempre, neste dia do ano que eu tanto amo... E, que tanto amei dividir com você durante todos os nossos dias. Enrolada em meio às fitas, enfeites e luzes, querido, pensei em nós. Em mim. Em um ano antes e em como minha cabeça viajava além pensando no dia que faríamos isso juntos, em nossa casa, com nossos filhos e um cachorro – porque era o número máximo de animais que você aceitava ter. Perdi-me em pensamentos e senti o peito apertar, pela primeira vez depois de tantos meses.
    Pergunto-me se você também lembrou. Ou, se algo na rua te fez lembrar, talvez durante a semana ou em qualquer outro momento, que hoje éramos para estar felizes, comemorando e prometendo. Fazendo planos para o ano que viria. Nossa promessa era sempre nós, você ainda se lembra?
              Pergunto-me se em todos os sábados você também sente vontade de voltar naquele restaurante, mas desiste ao lembrar que só íamos juntos. Penso se você ainda se lembra dos pequenos detalhes, das vezes que lavamos louça juntos numa tarde de domingo, nos sujamos com a espuma e nos beijamos depois, rindo. Das vezes que dormimos abraçados no sofá, das vezes que chorei ao te contar qualquer coisa – porque eu sempre pude te contar qualquer coisa. Queria saber se você sente saudades do Zeca, se pensa na minha avó, se eu ainda sou mencionada nos almoços de família.
               Depois de meses, pela primeira vez me permiti sentir sua falta.  
              Coloquei para tocar aquela música que eu sempre disse ser nossa, e que você sempre insistiu que não era. Sendo ou não sendo, ela sempre me fez pensar em você.  
    Mesmo depois de três anos, eu ainda consigo te ver cantando as letras dela pela primeira vez pra mim, naquele telhado, com aquelas pessoas. O escuro da noite caindo sobre nós e a certeza de que eu tanto te amava pesando em meus ombros.
                Depois de tantos meses, pela primeira vez chorei por nós.
               Chorei por perceber o que nos tornamos. Quem nós éramos, e como o nosso nós tão facilmente se foi.
              Sempre pensei que fosse passar o resto da minha vida ao teu lado – viver sem ti nunca fez parte dos meus planos. Tá... Tudo bem, hoje enxergo o quanto sei andar com minhas próprias pernas, mas a árvore montada e a certeza do primeiro Natal sem você depois de tanto tempo... Os acordes daquela música... Simplesmente me fizeram sentir sua falta. Pela primeira vez em meses quis sair correndo até você, te abraçar e te pedir desculpas. Desculpas pelas coisas que nunca fiz, e pelas que eu fiz também.
             Não sei se está bem, se está saindo, vivendo... Não sei se está feliz, triste, cansado. Não sei mais nada de ti, assim como você não sabe mais nada de mim. E, de alguma forma, isto me incomoda. Às vezes queria poder te contar do meu dia, só por contar. Pela força do hábito. Pelo respeito a quem éramos, pelo respeito a quanto eu te amei.
              Pela primeira vez senti sua falta, mas enxerguei que estamos do jeito que devemos estar. Voltei a ser quem sempre fui, e eu espero muito que você esteja satisfeito com quem você é agora. Estamos bem assim, eu aqui e você aí, mas sempre carregarei um pedaço seu, assim como sei que você carrega um meu também.
               Feliz Natal, espero que você esteja bem.
               Eu estou.

    - Em Tenebris

    7.7.18

    A change of heart



                    Eu sou tempestade e você é rio calmo e límpido.
                 Você é tudo aquilo que eu imaginei que eu quisesse, era o certo, o óbvio, o sentido que eu pensei que precisasse.  
                    Eu sou furacão e você é brisa calma e passageira.
        Você é fácil como final de tarde de verão, com o sol beijando nossas peles e o barulho das crianças correndo no quintal. Eu sou noite fria e tempestuosa de inverno. Eu quero correr, gritar, vencer o mundo e ganhar o dia. Você só quer chegar ao final do dia.
       Tudo bem o diferente; tudo bem o oposto. Por todos os nossos dias fomos certos e demos certo. Mas eu achei que seriamos certos por todos os meus dias – e não ter você era inaceitável, improvável, impossível. E olha eu aqui.
       Finalmente podendo ser eu de novo. Como sempre fui.
       Tempestade. Furacão. Noite fria e tempestuosa de inverno.
      Conhecendo gente, desejando outros corpos e pensando que talvez você não existisse em mim tanto quanto eu gostaria que sim.
      Você me salvou. Surgiu quando a tempestade era a maior de todas, a mais sufocante e dilaceradora possível. Quando a escuridão me engolia e eu pensei que não fosse aguentar, quando eu estava perdida, você me encontrou. Você tirou com a mão todos os resquícios de dor que existiam em mim e me mostrou que era possível um amor calmo e sereno. Que era fácil andar de mãos dadas pela cidade e adormecer nos teus braços nas noites de sábado. Eu estava cansada do difícil. E você era o fácil que eu pensei que precisasse.
       E eu sorri. E eu amei. E me entreguei.
      Amei-te tão profundamente que vaga é minha lembrança de um momento em que não te quis todo pra mim, em que não quis entregar-me a ti eternamente diante de Deus e de todos os presentes. Sonhei com o nosso castelo, a nossa casa e com nossos filhos, e, mesmo sonhando sozinha, planejando sozinha, nunca amei sozinha. E o triste é amar sozinha.
      Como acho que você está amando agora.
      Te peço perdão. Humildemente e desesperadamente te peço perdão por não te querer mais. Peço perdão por estar vivendo, e bem, sem você. Como nunca pensei que seria capaz. Eu te amei tanto que o peito chora agudo ao lembrar; mas percebi que pra te amar eu me apagava e, meu amor, eu quero incendiar.
               Finalmente vi que você é rio calmo e límpido enquanto eu sou a mais forte das ondas do oceano. E eu preciso de um amor como eu sei amar - aos gritos, batendo contra as pedras e lutando contra a maré brava.  
              Por anos me convenci de que eu precisava de um oposto para me acalmar. Mas enfim enxerguei que eu não quero me acalmar. Eu quero gritar aos quatro ventos a tempestade que sou. E você acalmava meus ventos e a chuva parava...
      Sempre parou.



    - Em Tenebris

    20.10.14

    Acts like summer and walks like rain


       Ele riu baixinho enquanto eu apagava o cigarro na areia naquela madrugada fria. A música tocava alto e todos os tipos de corpos e cheiros rondavam meus sentidos, provocando minha carne que um dia foi fraca; seus cabelos lisinhos voavam contra o vento e me faziam rir como nunca antes... O mundo exterior já não me importava.
        Eu, de tão famoso coração inquieto e cigano, pela primeira vez em sabe-lá-quanto-tempo respirava tranquila e não conseguia desviar os olhos de alguém. Custava-me acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, e vez ou outra eu até olhava em volta, procurava em outros corpos qualquer mínimo sinal de que meu eu são e consciente ainda era capaz de querer o desconhecido. Mas, infelizmente - ou felizmente -, encontrei-me procurando por ele em todos os outros e, sem sucesso na busca, sorri ao constatar que ela era inútil, afinal, o que eu queria estava bem ali em minha frente, com os cabelos voando, sorriso tímido no rosto e dedos aflitos segurando meus dedos aflitos. E naquele momento eu quis fugir inúmeras vezes.
        Quis fugir porque eu sentia medo por não estar sentindo medo nenhum. Sentia medo por estar em paz e sorridente. Sentia medo por não querer de fato fugir. Sentia medo por querer ficar e ficar e ficar. Sentia medo por estar feliz.
        Eu há tempos estava cansada de barulho e ele é silencio. Silencio rápido e despreocupado. Silencio sem ser silencio, que chegou brisa de inverno e aqueceu como vento quente de verão.
        O mar nos olhava e sussurrava palavras bonitas, e eu o via sorrir porque ele também estava ouvindo o que eu ouvia. O vento empurrava seu cheiro contra meu rosto como se não quisesse que eu o esquecesse por segundo algum, mas mal sabia o vento! O estrago já havia sido feito... E não existia caminho de volta. Mesmo se existisse! Eu não ousaria olhar para trás jamais.
        A urgência que eu senti todas as vezes em que ele tocou minha pele valia mais que qualquer outra coisa, mais que quaisquer outros toques, lábios, cheiros, peles. Na esquina de seu pescoço com o ombro foi onde encontrei meu cheiro preferido. Nas suas mãos encontrei abrigo e seus olhos seriam capazes de afogar-me mais rápido que qualquer um dos oceanos. Eu, sempre tão morta de medo de morrer afogada, hoje não aguentava de vontade de mergulhar e nunca mais emergir.


    - Em Purgare
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