• Categoria: tenebris
  • 8.3.19

    Sinto muito por sentir tanto


            Toda vez que quero escrever sobre você, eu coloco a mesma música. Acho que nem preciso dizer qual é, porque você deve saber bem. Quando quero fazer doer mais, lembro daquela madrugada, dos nossos corpos colados no escuro e Cartola tocando ao fundo, enquanto você me apresentava seus personagens preferidos e, vez ou outra, beijava o canto do meu pescoço – aquele lá, onde o cheiro de ninguém é igual ao de ninguém no mundo.
                Lembro disso e a saudade dói e quase sufoca.
              Lembro do ano novo, de você dizendo o que eu era pra você. Da gente se beijando depois da meia noite, de eu te entregando os potes da minha mãe – e hoje tenho certeza de que eles nunca vão voltar. Assim como você: também tenho certeza de que você não volta mais.
               Você nunca foi meu. Eu sempre fui sua. Do topo da cabeça ao dedinho do pé, desde aquele dia 22, eu sempre fui sua. Lembro da gente encostado no muro, do medo de acordar quem dormia, rindo e com a certeza de que no mundo só existíamos nós dois. Ninguém mais importava. A gente mal se conhecia e eu não tinha ideia de quanto tempo deveria reservar pra nós. Achei que seriam duas semanas, no máximo três. Jamais imaginei que duraríamos no novo ano.
              Olho a flor amassada colada com durex no meu caderno, a data meio apagada no canto, e quero sair correndo. Ir até sua casa, pelo caminho que tanto amei fazer durante todos os nossos dias, te ver abrindo o portão e te abraçar e pedir para nunca mais me deixar ir embora. Quero ficar. Quero me aninhar em você na sua cama gigante, quero me sentir escondida ali, naquele mundo de nós dois.
              Lembro das vezes que acordei embriagada de você, depois de uma madrugada toda ouvindo tua voz. Penso nas minhas piadas bobas que só você dava risada, penso nas suas piadas que você contava todos os dias. Penso em nós.
              O dia inteiro, eu penso em nós. Ontem lotei minha cabeça de qualquer coisa do mundo, só para não pensar na gente. Fiz força, engoli as lágrimas, disse que por você nunca mais choraria. 
              Inocência minha. 
              Minha mente te trouxe de volta em sonho e hoje escrevo para tentar reviver o que ainda tenho de você em mim. Queria te eternizar de qualquer forma, esquecer as palavras duras, as coisas que doeram. Guardar em mim os nossos momentos bons, os momentos que eu pensei que nunca iria querer deixar sua casa – e você. Os momentos que você olhava pra mim e dizia o quanto eu era bonita, os momentos em que eu me declarei baixinho enquanto você dormia, porque não tinha coragem de me rasgar por inteira e te contar que dentro de mim só tinha você.
    Queria voltar para quando eu ainda não sentia tanto, porque hoje, meu bem, eu sinto muito.

    - Em tenebris

    23.11.18

    Time is gone



                    Depois de tantos meses, pela primeira vez me permiti sentir sua falta. A data marcada no calendário me incomodou e me fez enxergar que o tempo, tão rapidamente, passou. Pergunto-me se você também se lembrou, se pensou em mim, se pensou em nós.
                    Eu estava montando a árvore de Natal, ouvindo as mesmas músicas natalinas de sempre, neste dia do ano que eu tanto amo... E, que tanto amei dividir com você durante todos os nossos dias. Enrolada em meio às fitas, enfeites e luzes, querido, pensei em nós. Em mim. Em um ano antes e em como minha cabeça viajava além pensando no dia que faríamos isso juntos, em nossa casa, com nossos filhos e um cachorro – porque era o número máximo de animais que você aceitava ter. Perdi-me em pensamentos e senti o peito apertar, pela primeira vez depois de tantos meses.
    Pergunto-me se você também lembrou. Ou, se algo na rua te fez lembrar, talvez durante a semana ou em qualquer outro momento, que hoje éramos para estar felizes, comemorando e prometendo. Fazendo planos para o ano que viria. Nossa promessa era sempre nós, você ainda se lembra?
              Pergunto-me se em todos os sábados você também sente vontade de voltar naquele restaurante, mas desiste ao lembrar que só íamos juntos. Penso se você ainda se lembra dos pequenos detalhes, das vezes que lavamos louça juntos numa tarde de domingo, nos sujamos com a espuma e nos beijamos depois, rindo. Das vezes que dormimos abraçados no sofá, das vezes que chorei ao te contar qualquer coisa – porque eu sempre pude te contar qualquer coisa. Queria saber se você sente saudades do Zeca, se pensa na minha avó, se eu ainda sou mencionada nos almoços de família.
               Depois de meses, pela primeira vez me permiti sentir sua falta.  
              Coloquei para tocar aquela música que eu sempre disse ser nossa, e que você sempre insistiu que não era. Sendo ou não sendo, ela sempre me fez pensar em você.  
    Mesmo depois de três anos, eu ainda consigo te ver cantando as letras dela pela primeira vez pra mim, naquele telhado, com aquelas pessoas. O escuro da noite caindo sobre nós e a certeza de que eu tanto te amava pesando em meus ombros.
                Depois de tantos meses, pela primeira vez chorei por nós.
               Chorei por perceber o que nos tornamos. Quem nós éramos, e como o nosso nós tão facilmente se foi.
              Sempre pensei que fosse passar o resto da minha vida ao teu lado – viver sem ti nunca fez parte dos meus planos. Tá... Tudo bem, hoje enxergo o quanto sei andar com minhas próprias pernas, mas a árvore montada e a certeza do primeiro Natal sem você depois de tanto tempo... Os acordes daquela música... Simplesmente me fizeram sentir sua falta. Pela primeira vez em meses quis sair correndo até você, te abraçar e te pedir desculpas. Desculpas pelas coisas que nunca fiz, e pelas que eu fiz também.
             Não sei se está bem, se está saindo, vivendo... Não sei se está feliz, triste, cansado. Não sei mais nada de ti, assim como você não sabe mais nada de mim. E, de alguma forma, isto me incomoda. Às vezes queria poder te contar do meu dia, só por contar. Pela força do hábito. Pelo respeito a quem éramos, pelo respeito a quanto eu te amei.
              Pela primeira vez senti sua falta, mas enxerguei que estamos do jeito que devemos estar. Voltei a ser quem sempre fui, e eu espero muito que você esteja satisfeito com quem você é agora. Estamos bem assim, eu aqui e você aí, mas sempre carregarei um pedaço seu, assim como sei que você carrega um meu também.
               Feliz Natal, espero que você esteja bem.
               Eu estou.

    - Em Tenebris

    14.7.18

    Entra pra ver...


        Você chegou tímido, na sua. Olhou pra mim, sorriu e sentou. Abriu a mala, tirou os sapatos, pediu um café. Foi entrando como se a casa fosse sua, agia como se conhecesse todos os cantos e segredos - e eu acho que de fato conhecia.
        As vezes me olhava e ria, chamava pra conversar, massageava meus pés, fingia me conhecer desde os primórdios.
        Fiquei ressabiada, desconfiada e até com medo.
        Eu estava certa e não sabia.
        Decidi abrir-me aos poucos, fraquejei confesso. Por quê? Não sei. Eu não queria saber de visita! Sempre me vangloriei por ser feliz sozinha, nunca gostei de mudanças assim tão drásticas.
        Mas você parecia decidido. Queria ficar, não pretendia mudar de ideia. Tinha trazido pijama, colocado a escova de dente ao lado da minha, tirado os sapatos, desligado o celular, escolhido a janta.
        E nem pediu permissão.
        Mas eu cedi.
        Cedi a você, a mim e a nós.
        Perdi o medo, abri os braços, a alma, o coração. Resolvi dar uma chance, resolvi tentar. Tinha cansado da felicidade solitária, uma vida a dois poderia ser boa. Afinal, por que não? As flores do meu coração desabrocharam e eu nunca mais quis saber da seca.
        A primavera parecia linda olhada daqui.
        Unimos forças, demos laços, jogamos tinta nas paredes, reviramos as gavetas das certezas e substituímos todas elas. Conheci novas coisas, criei novos gostos, cansei da mesmice. Quis ser nova, quis ser outra, quis ser tua.
        Fizemos música, promessas, planos, criamos histórias, demos nomes ao que não conhecíamos. Você me deu novas verdades, lições, ideias, pensamentos, vontades.
        Aprendi a ser eu.
        E tudo parecia tão fácil...
        Parecia.
        Estava tudo fora do lugar e eu não me importava.
        Mas não era nem outono e o inverno já tinha chego. As tempestades voltaram e seu coração se encheu de neve. Você ficou frio, distante. Até que de uma hora pra outra levantou, procurou pelas chaves, deixou a xícara sobre a mesa, calçou os sapatos, ligou o celular, arrumou as malas.
        E com a mesma facilidade que chegou, foi embora.
        Me deixando ali, sozinha, com uma bagunça inteira pra arrumar.


    - Em Tenebris

    7.7.18

    A change of heart



                    Eu sou tempestade e você é rio calmo e límpido.
                 Você é tudo aquilo que eu imaginei que eu quisesse, era o certo, o óbvio, o sentido que eu pensei que precisasse.  
                    Eu sou furacão e você é brisa calma e passageira.
        Você é fácil como final de tarde de verão, com o sol beijando nossas peles e o barulho das crianças correndo no quintal. Eu sou noite fria e tempestuosa de inverno. Eu quero correr, gritar, vencer o mundo e ganhar o dia. Você só quer chegar ao final do dia.
       Tudo bem o diferente; tudo bem o oposto. Por todos os nossos dias fomos certos e demos certo. Mas eu achei que seriamos certos por todos os meus dias – e não ter você era inaceitável, improvável, impossível. E olha eu aqui.
       Finalmente podendo ser eu de novo. Como sempre fui.
       Tempestade. Furacão. Noite fria e tempestuosa de inverno.
      Conhecendo gente, desejando outros corpos e pensando que talvez você não existisse em mim tanto quanto eu gostaria que sim.
      Você me salvou. Surgiu quando a tempestade era a maior de todas, a mais sufocante e dilaceradora possível. Quando a escuridão me engolia e eu pensei que não fosse aguentar, quando eu estava perdida, você me encontrou. Você tirou com a mão todos os resquícios de dor que existiam em mim e me mostrou que era possível um amor calmo e sereno. Que era fácil andar de mãos dadas pela cidade e adormecer nos teus braços nas noites de sábado. Eu estava cansada do difícil. E você era o fácil que eu pensei que precisasse.
       E eu sorri. E eu amei. E me entreguei.
      Amei-te tão profundamente que vaga é minha lembrança de um momento em que não te quis todo pra mim, em que não quis entregar-me a ti eternamente diante de Deus e de todos os presentes. Sonhei com o nosso castelo, a nossa casa e com nossos filhos, e, mesmo sonhando sozinha, planejando sozinha, nunca amei sozinha. E o triste é amar sozinha.
      Como acho que você está amando agora.
      Te peço perdão. Humildemente e desesperadamente te peço perdão por não te querer mais. Peço perdão por estar vivendo, e bem, sem você. Como nunca pensei que seria capaz. Eu te amei tanto que o peito chora agudo ao lembrar; mas percebi que pra te amar eu me apagava e, meu amor, eu quero incendiar.
               Finalmente vi que você é rio calmo e límpido enquanto eu sou a mais forte das ondas do oceano. E eu preciso de um amor como eu sei amar - aos gritos, batendo contra as pedras e lutando contra a maré brava.  
              Por anos me convenci de que eu precisava de um oposto para me acalmar. Mas enfim enxerguei que eu não quero me acalmar. Eu quero gritar aos quatro ventos a tempestade que sou. E você acalmava meus ventos e a chuva parava...
      Sempre parou.



    - Em Tenebris

    29.6.18

    Deixa



           Fico me perguntando se sentes minha falta tanto quanto eu sinto a sua.
         Penso se ainda abre minha conversa no whatsapp e fica olhando minha foto como eu costumo fazer. O tempo está passando e eu já não perco infinitos minutos te esperando; já me convenci de que você não vem e não vai ligar.
           Só esta semana já me apaixonei três vezes. Por três caras diferentes.
         Tinha me esquecido de como meu coração gosta de amar livremente, se apaixonando por qualquer sorriso que cruze com o meu. Pelo cara de cabelos compridos da biblioteca, pelo moço tatuado que conheci no caixa do bar, pelo homem alto de óculos escuros que, de certa forma, naquele momento, parecia perfeito para mim. Assim como você foi um dia.
            Talvez ainda seja.
          Fico pensando se algum dia voltarei a conhecer alguém que a orelha seja tão perfeita quanto a sua; que tenha o papo mais encaixável ao meu quanto o teu – e o beijo... ah, o beijo. Na maioria do tempo não me permito pensar em nós. Fecho os olhos e tento esquecer que sei que você está tão enlouquecido quanto eu, correndo de bicicleta de madrugada e se apaixonando por todas que passam pela sua frente. Sei que você negou o carinho que precisava porque o orgulho te consome e te beija o rosto, e penso que no fundo você está tão triste quanto eu.
            Duas semanas.
        Duas semanas foram o suficiente para causar este terremoto todo. Somos furacão. Somos tempestade. E você é tão noite fria de inverno quanto eu.
          Não sei por que tua falta me dói tão agudo no peito. Tua loucura, tão compatível à minha, nos mostrou que juntos não podemos ser nada. Somos impossíveis. Doloridos. Não tem como funcionar. Mas, lindo, eu juro: sinto tanto a tua falta que às vezes a vontade de atravessar teu orgulho é sufocante.
          Sinto falta das nossas brigas, dos teus ciúmes, da tua voz. Do teu toque áspero, do teu abraço asfixiante e de sentir na tua pele que você precisava de mim tanto quanto eu precisava de você. Sinto falta da tua risada, e de te contar minhas piadas bobas que, diferentemente de todos os outros, eu sei que você sempre gostou. Sinto falta das nossas longas conversas de madrugada e, meu Deus, sinto falta até mesmo da sensação de ressaca no dia seguinte.
            Ressaca por ter passado a noite inteira embriagada de você.  
          Fico me perguntando se sentes minha falta. Se ao menos se lembra de mim. Porque, lindo, eu sinto. Eu sinto muito (por tudo). E é desesperador. 

    - Em Tenebris.

    23.9.14

    You're my disease


       Cada uma de suas pintas em comunhão com minhas cicatrizes. A neblina de cigarro sobre nossas cabeças e o cheiro de álcool impregnado no quarto. As paredes movimentando-se com a mesma frequência de nossos corpos colados e suados; barulhos baixos e sufocados ecoando no vazio daquela noite sem fim. O tempo tinha parado.
        Ainda posso sentir seu cheiro misturado ao meu - três banhos não foram suficientes para tirá-lo de mim, apesar de ter sido o bastante para eliminar o cheiro de cigarro. Mesmo depois de polir, esfregar e esfoliar cada centímetro do meu corpo, eu ainda cheirava à você. Cheirava à noite passada, às lágrimas aflitamente derramadas e à dor tão duramente sentida.
        Mais uma vez, a embriaguez não me permitiu negar-te e, como de praxe, deixei cada uma das minhas vontades mais reprimidas soltarem as asas e gritarem teu nome. O escuro da noite passada agora me atormenta, e os flashes apagados de memórias incertas e descrentes correm pela minha mente enquanto eu acendo o terceiro cigarro da última hora na esperança de apagar-te de mim.
        Ainda não aprendi a amar-te com calma. Encanta-me amar-te às pressas, com a vontade e coragem de um guerreiro; não sei mais amar-te no silêncio, no escuro. Minhas veias estouraram de tanto aguentar teus toques fortes e grosseiros.
        Você ainda é meu erro mais certo e, meu deus, estou farta de errar.

    - Em Tenebris

    2.9.14

    I can't stop reading our story



    Maio de 2019.

        Faz tempo que não escrevo sobre você. Talvez isto seja consequência do tempo que passou... E como passou! Passou e nós mudamos. A faculdade acabou, namoros foram e voltaram e você continua aqui dentro... Pouco, mas continua.
        Lembrei de você depois de anos, numa tarde qualquer, enquanto olhava para um garoto branco feito leite atravessando a Av. Paulista. Louro, nada alto, magrelo. O teu completo oposto. Tua versão negativa. Mas me lembrei de você e acredito que o motivo disto é a minha reprimida insistência de te guardar em mim e para mim. Em segredo, escondo em cantos distintos do meu corpo detalhes teus, e eles reaparecem assim, numa tarde chuvosa de quarta, enquanto vou para o trabalho. Ou em uma sexta quente, enquanto tomo um bom café na Fnac. O ponto é que nem cinco anos depois, aqui em São Paulo, deixo de me lembrar de você em momentos pequenos e rápidos. Assim como era em Maringá. Assim como era em Londrina. Assim como seria em qualquer outro canto deste mundo.
        Eu tinha dezessete anos quando te amei e hoje, aos vinte e dois, entendo que ele não foi embora por completo. Tenho certeza disto quando sinto teu cheiro em outros pescoços ou ouço teu riso em outras bocas.
        Você provavelmente não se lembra - assim como eu em teu lugar não me lembraria - mas gosto de pensar que no fundo você guarda a lembrança de uma garota insistente que por muito tempo não te deixou em paz. Tanta coisa mudou... Não te vejo há anos e mal sei que caminho tomou. Não se sei cursou medicina ou engenharia. Se cortou o cabelo e se fez a tatuagem que tanto queria.
        Fiz questão de te apagar da minha vida quando deixei nossa - mais minha do que sua, devo ressaltar - cidade cinco anos atrás. Pena que não consegui te apagar dos meus sonhos nem dos meus devaneios mais criativos. Percebi que o tempo passou mas não levou com ele minha vontade de beijar cada uma das tuas cicatrizes...
        E não há trânsito, chuva, teatro, favela, paulista ou qualquer outra coisa que me impeça de pensar em como eu estaria mais feliz se estivesse nos teus braços quentes e confortáveis, do que aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.
        Criolo estava errado, não é só em São Paulo que não existe amor.
        Sem você não existe amor em lugar algum.

    - Em Tenebris

    24.7.14

    Pourtant quelqu'un m'a dit que tu m'aimais encore


        Você sabe que eu odeio tua pirraça e por isso abusa tanto dela. Sabe que eu detesto quando você fala grosso e me deixa reclamando sozinha. Que eu não suporto teu perfume com cheiro de zoológico porque ele faz com que eu me sinta engolida por um gorila toda vez que você me abraça. Que tua mordida me deixa roxa por semanas e que eu não gosto quando você encosta demais no meu pescoço.
        Você sabe que eu detesto tuas amigas e quando elas comentam nossas fotos. Odeio também quando você não curte as minhas e vem reclamar que minhas roupas estão muito curtas. Tenho raiva quando você me faz esperar e quando vem em casa me pedir desculpa todas as vezes que a gente briga. Você podia simplesmente parar de brigar comigo. Ia te poupar muita caminhada.
         Odeio quando você não vai às festas comigo e odeio mais ainda quando você vai em festas sem mim. Odeio quando me liga bêbado e odeio não conseguir não te atender simplesmente. Odeio tuas meias no meio da canela e odeio quando você usa chinelo. Nunca gostei dos teus pés. Ou das tuas pernas. Ou de você inteiro.
         Detesto, na verdade.
         Cada parte de você.
         Teu cabelo que nunca está bagunçado e tua força sobrenatural, que me tira do chão com um braço só e me joga no sofá sem qualquer esforço. Teu sorriso tímido e seu jeito de rir. Às vezes você respira rápido demais e às vezes parece que nem respira. Odeio quando você faz isso. Sempre acho que vai morrer ali, bem na minha frente.
        Odeio quando você fica perto demais de mim, tanto que parece que vai me esmagar. Odeio quando você passa teus braços em meu pescoço e não me deixa sair de perto. Odeio quando você fica longe por muito tempo, some, faz merda e volta como se nada tivesse acontecido.
        Odeio seu jeito de lidar comigo. Odeio quando você é chato e odeio mais ainda quando você vem cheio de amor. Detesto quando você não entende minhas entrelinhas e foge fingindo que não me ouviu... E você sempre faz isso: sempre finge não entender o tudo que eu vivo te dizendo, o nosso tudo. Que tuas mãos se encaixam perfeitamente nas minhas quando eu tenho medo, que o tremor das tuas costas me faz dormir melhor e que teus beijos de despedida doem no fundo do meu corpo, como se tirassem o melhor de mim e levassem consigo. Mas eu não me importo mais.
        Estou acostumada com tuas idas e vindas, com teus esporros, com tuas frases curtas e tua falta de olho no olho, mesmo sabendo o quanto eu gosto disto.
        Você nunca fez questão de nada que eu goste...E, por fim, você nunca fez questão de nós.


    - Em Tenebris

    14.7.14

    Queria não ter mais palavras sobre você

    A triste verdade é que todos nós estamos sentindo a falta de alguém. 
    E esperando que não importa onde eles estejam, eles estão sentindo nossa falta também.

    Às vezes eu acho que vou enlouquecer se passar mais um dia longe de você.
    Mas quando foi que eu estive perto?
    Nunca estive. E este é o maior dos problemas.

    Isto não é um poema, não é uma crônica, nem um conto ou uma carta. Não sei o que é.
    É um reflexo borrado do pouco de ti que ainda resta em mim: uma cópia perfeita da confusão que se estende em meus rios internos há anos e custam em tentar te afogar.

    Sinto tua falta como se tivesse estado do teu lado algum dia. Sinto teu cheiro nos outros como se eu conhecesse o aroma. Sinto a falta dos teus dedos nos meus como se isto já tivesse acontecido antes. Sinto tua falta como se um dia você tivesse sido meu.
    E não foi. Nunca foi.
    Não é agora que vai ser.

    Pensei não ter mais palavras sobre você.
    Parece que eu sempre vou ter.

    Cinco anos não foram suficientes.
    Nem mais mil dias serão.
    Você é o mais bem construído de todos os meus personagens. De longe o que mais amei. Risos. Falar "de longe" quando o assunto é você me parece irônico, sarcástico. Praticamente uma metalinguagem da nossa história: falar dela dentro dela. Ou então agora, onde estou dizendo apenas uma parte de todo o nosso todo: metonímia. E lá venho eu... falando de figuras de linguagem de novo, justo as que você sempre odiou.

    Tenho um "quê" psicótico por tudo e qualquer coisa que você um dia tenha odiado.
    Tenho um "quê" psicótico por você. Ainda tenho.

    Me pergunto se ainda se lembra.
    Se lembra do meu nome e dos meus cabelos enroladinhos.
    Você costumava gostar deles. E de mim.

    Muito tempo se passou, eu sei. Não te peço nada. Ou peço tudo, não sei.
    Às vezes me imagino em Jacarepaguá, sim, ainda.
    Mergulhada em teus bracinhos, cantarolando aquela música para ti.
    Mas agora estou em Maringá, mergulhada em minhas lágrimas saudosas, cantarolando aquela música para mim.

    Essa é a maior de todas as minhas escuridões.
    Fazia tempo que não escrevia para você.

    Que saudade de ti, Raphael.

    - Em Tenebris

    9.7.14

    Kept breakin' promises you said you keep


      Queria entender o que senti por ele e por que sua falta me dói tão agudo no peito. Desde que o deixei venho tentando compreender os motivos que me levaram à estender tanto essa nossa estória bagunçada, tentando decifrar o que meu coração tanto pede e se é por ele que grita desesperadamente no meio da noite. Se os espasmos de saudade são frutos de um sentimento bom ou ruim, porque você sabe... Às vezes sentimos saudade de algo que nos fez mal.
       E ele me fez muito mal.
       Mal por ter me tratado como se eu não fosse boa ou sequer capaz de um dia ser. Mal por ter me abandonado tantas vezes e voltado como se nada tivesse acontecido. Mal por ter me feito acreditar que para ele eu nunca seria boa o suficiente ou, pelo menos, não tão boa quanto todas as outras.
       Me custa acreditar que com ele eu pude ter sido tão fraca, e que agora volto à balançar na corda bamba que dá direto para o colo em que por tanto tempo dormi e fingi ser feliz. Ter feito as malas e virado as costas de nada adiantou e eu só sei disso agora, porque antes o desespero me fez crer que essa era a melhor coisa à fazer.
       Amá-lo nunca foi fácil; sempre foi cheio de chagas e cicatrizes que o ajudavam a enterrar o pouco de clareza que vivia em meio à sua escuridão. Escuridão que nem por um dia dos nossos 376 ele se sentiu livre para deixá-la escapar. Escuridão que engoliu toda a parte boa do seu ser e que nos privou de tantas coisas boas que poderiam ter acontecido durante todo esse tempo.
       Acredito que sua alma dura e dilacerada seja o principal fator para que eu o tenha amado tão profundamente. Que minha vontade de salvá-lo é equivalente à saudade que sinto dele e dos frágeis momentos bons que vivemos... Como quando ele costumava enrolar seus dedos compridos e magros em meus cabelos e dizer que gostava do meu cheiro.
       Me pergunto se ele ainda gosta dele e de mim, ou se algum dia realmente chegou a gostar. Mas não como eu sempre gostei dele, porque o que senti era bem mais profundo do que somente gostar.

    - Em Tenebris

    27.6.14

    Azulejos


       Zé, hoje descobri porque eu e ele nunca demos certo.
       Não foi porque ele usava aquelas meias xadrez ou comia toda a borda da pizza. Nem porque me mandava mensagens ansiosas e inseguras todos os dias. Foi por causa do banheiro dele, Zé.
       Não! Não era sujo ou fedido, pelo contrário: era limpíssimo, mais do que o seu jamais foi. O problema eram os azulejos... Eles eram da cor exata dos teus olhos, Zé. Toda vez que eu entrava lá deparava-me com uma parede repleta de olhos teus... Justo eles que sempre foram a minha maior fraqueza.
       Isto me entristeceu, sabe? Tudo estava bem e parecia que minha vida ia enfim largar o rumo da tua. Fazia tempo que sequer me lembrava de ti e mal abria nossa conversa no whatsapp. Mas eu sempre soube que teus olhos azuis seriam a razão da minha ruína. De alguma forma, em algum momento, isto iria acontecer e o romance que eu acreditei que salvaria minha vida acabou por causa dos teus malditos olhos cor do céu.
       E cor dos azulejos dele.
       Zé, voltei à estaca zero. Não aguentei um mês te encarando naquele banheiro e não usá-lo simplesmente não era uma opção. Afinal, aqueles azulejos me passavam tranquilidade quando o outro me irritava com sua mania de elogiar absolutamente tudo o que eu fazia. Certa vez tranquei-me no banheiro por meia hora e fiquei ali, encarando teus olhos e torcendo para que você estivesse do outro lado da porta quando eu saísse.
       E aquela foi a minha última noite com ele.
       Deixei o banheiro com despedidas curtas e nunca mais retornei ou atendi suas ligações.
       Hoje, Zé, estou deitada em minha cama, encarando as estrelas do teto que você costumava odiar e me perguntando onde esta saudade de você vai me levar. Hoje foram os azulejos, no outro mês foi a risada e no antes deste a mania de estrelar os dedos. Qual será o próximo?
       Me diga, Zé. Por favor, olhe em meus olhos e me responda, sem titubear ou me encher de enrolações, me responda: quantos caras mais eu vou deixar por terem algo que me lembra você?

    - Em Tenebris

    22.4.14

    Once I thought we could make it through


           A gente tem que parar de fingir que damos certo juntos... Nós sabemos que não. Já cansamos de terminar e voltar e tentar dar mais uma chance pra toda essa história e fingir que está tudo bem. Mas, meu deus, não é assim. Infelizmente.
           Ontem tomei dois banhos depois de tudo; queria tirar teu cheiro do meu corpo. Precisava apagar toda e qualquer memória sua naquele momento, mas foi em vão completo. Você estava marcado em mim há anos, assim como teu cheiro, a marca dos teus dentes, tuas unhas, teu calor. Já era tarde demais pra conseguir apagar, e eu sei disso.
          Sei disso agora, porque não sabia antes. Não sabia do efeito que me causavas, muito menos de como eu gostava disso. Nunca quis tanto tua pele e tua boca na minha. Nunca resisti tanto e fui tão fraca ao mesmo tempo. Eu sabia que havia um motivo pra tudo isso. Para a minha recusa e tua pressa, meu stress e tua calma. Estava tudo escrito.
           Temos que parar de fingir que damos certo juntos, porque não damos, e não adianta continuar nessa tentativa e luta eterna, se no outro dia eu sempre acordo do mesmo jeito: enrolada em tuas pernas e afogada em minhas lágrimas arrependidas, com a certeza de que eu não devia ter feito isso, nem nada, nunca. E sempre levanto quietinha, arrumo minhas coisas, não olho para trás e vou embora, com a mesma promessa de que isso nunca mais vai se repetir. Sem bilhetes, sem café da manhã, sem beijo de bom dia.
           Nós não gostamos de ficar juntos, sejamos sinceros. As horas ficam sempre recheadas de brigas, discussões, desentendimentos e nada vira tudo em um espaço tão curto de tempo. Com você perco a cabeça e o juízo fácil, perco o equilíbrio e até quando é bom você consegue fazer sem ruim. Você consegue me fazer questionar todos os motivos que me levam a não ter desistido de você em todos esses anos. Mas com esse mesmo jeito, você consegue me fazer gostar muito quando tudo está bem.
          Queria acreditar que juntos poderíamos ser sinfonia, movimento, um só. Mas meu amor, há tanto pra me fazer duvidar disso. Inclusive você. Você continua sempre com esse jeito largadão só teu mas que me irrita tanto. Que me faz te odiar tanto, mesmo quando te amo... E como amo. Não dá mais pra ser assim, entende? Não dá mais pra ser assim.
          Hoje acordei com frio, mesmo agarrada em teu corpo. A janela e a porta estavam fechadas, mas eu tremia e batia os dentes. Sentia o mesmo frio que eu sinto sempre que acordo do teu lado. Mas hoje eu percebi que o frio vinha de ti, diretamente de ti para mim. E eu não quero mais isso. Eu quero calor, meu amor.


    - Em Tenebris
           
         
       

    22.2.14

    There will always be more words


         Eu soube que te amaria pra sempre desde o primeiro segundo em que pousei meus olhos nos seus. Soube que amaria teus cachos, teus dramas, tuas birras, tuas manias. Que pensaria em você todos os dias antes de dormir, e que tu seria único no mundo e na minha vida.
         Confesso que as vezes não sei se tudo aquilo aconteceu ou se foi apenas minha imaginação. Você, melhor do que ninguém, sabe que vivo costurando a realidade nas palavras e fico sem saber distinguir depois. Sabe também, que sempre me foi extremamente atraente escrever sobre aquilo que eu queria que acontecesse, não sobre o que de fato aconteceu. E você inclusive sabe que te coloquei nas palavras mais do que qualquer outro, amor. Que escrevi sobre tudo aquilo que não disse e queria dizer e sobre tudo aquilo que queria que você dissesse, mas nunca disse e nunca dirá, pois já não há mais tempo nem paciência para nós, meu bem.
          É difícil compreender que o que passou não volta mais, e que de nós só nos resta as palavras e o que sobrou delas, depois de todo esse tempo. E que tempo! E quanto tempo!
          Você acredita que quatro anos já se foram? E que nenhum deles volta mais? Eu não. Não acredito, assim como não aceito e não quero levar pra frente. Ainda passo horas imaginando como seria se a gente se reencontrasse e tivesse tempo para falar sobre aquilo que não tivemos tempo antes. Sobre todos os motivos ocultos e escancarados que nos levaram ao inevitável fim daquilo que eu achava que seria pra sempre. Lembro de ter passado tanto tempo te procurando em todos os cantos, caixas e gavetas... Implorando por qualquer mínimo resquício seu que pudesse me provar que tudo aquilo, ou pelo menos parte daquilo, foi verdade. Que eu não havia de fato enlouquecido ou perdido o pouco juízo que ainda tinha.
          De nós, ninguém nunca saberá de tudo. Ninguém nunca será capaz de entender o porquê de eu ter te amado tanto e te quisto tanto, dessa forma tão intensa e ingênua com que aprendi a te amar e amei por todo aquele 2009... Um amor leve, sem muitas turbulências, mas tão gigante e sincero. Um amor que me sugou e incomodou baixinho por tenebrosos invernos, desde que você partiu e acabou de vez com nosso "nós", tomando coragem de fazer aquilo que nós dois sabíamos que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.
         Mas hoje eu enxergo que talvez tenha sido melhor assim.
         E não há mais tempo.
         Acredito que até o final dos dias eu vou escrever sobre você. Escrever sobre sua forma terna e peculiar de me amar, de forma que nenhum outro um dia foi capaz. Acredito que terei sempre o que dizer sobre o que aconteceu com a gente, e vou querer por em palavras tudo aquilo que não consegui de fato te dizer um dia... E são tantas coisas, amor. Tantas que você não acreditaria, assim como eu ainda custo a acreditar e por isso as palavras vão sempre existir quando o assunto for você. Aquele que me ensinou a amar do jeito mais bonito que se pode amar alguém.

    - Em Tenebris

    5.1.14

    Do you ever get homesick?


          Com a cabeça pesada e cheia de dores me sentei na cama de casal que agora estava vazia. Fitei o teto e ao ver a estrelas de borracha coladas nele, instintivamente fechei o olhos e sonhei… Acordada.
          Lembrei-me com carinho de todas as diferenças que existiam entre nós, do seu péssimo gosto musical e da minha extrema vaidade. Você mal sabia dançar, vivia pisando nos meus pés e eu nunca tive coragem de reclamar. Lembro-me bem da noite de formatura,onde você tinha bebido mais do que o necessário e acabou caindo de joelhos em minha frente antes de podermos dançar nossa primeira valsa oficial como formados. Eu, como sempre bem-humorada, fechei os olhos e ri de sua cara, o ajudei a levantar e me desculpei em seu nome para todos.
          Você nunca reconheceu meu esforço em manter nossa relação, e a prova disso foi deixar a porta aberta ao ir embora pra sempre naquela terça-feira chuvosa. Além de deixar a porta de casa aberta, deixou a porta de meu coração aberta também, mas parece que tem um abismo entre minha posição e a porta, um abismo que há tanto tempo eu tento passar.
          Ah como eu quero poder fechar aquela porta.
          Entrou um inverno insuportável por ela nos últimos onze meses, e eu não aguento mais passar frio. Eu estava muito acostumada a estar quente ao seu lado, e mesmo quando não estava quente, só o calor de seu sorriso me mantinha aquecida. Era bom me cobrir com seus lábios, e com seus abraços também. Usar seus braços de cobertor e dividir uma ou duas xícaras de café nas tardes chuvosas… E foi bem assim que você foi embora.
         Depois de terminarmos mais uma xícara de café e uma comédia-romântica européia, onde o casal se perde em Paris e se encontra em Londres… Eu me perdi de você aqui no Rio mesmo, e não quero ir para São Paulo para ter que encontrar, se bem que, se for para te reencontrar eu vou até o Cazaquistão, até o inferno, até a China… Apesar de eu saber que na China eu nunca vou te encontrar, já que sempre detestou a Ásia, muito menos no inferno, pois você é o tipo de pessoa que nem o Diabo quer… Só eu quero, e você resolveu fugir justamente da unica pessoa que te quer.
         Talvez seu problema seja esse, seja essa sua mania ridícula de fugir de tudo aquilo que quer teu bem, que quer você. Fugiu de seus pais, de sua irmã, da sua melhor amiga e agora de mim. O que você quer? Quer levar uns tapas? Um par de chifres talvez? Pode doer mas eu juro que faço o que você quiser se eu poder te ter de volta. Faço até seu macarrão com gengibre, escuto Mamonas e canto Led Zeppelin para você na chuva! Se for preciso, corro até o alto de um penhasco e me jogo depois… Me jogo para teus braços, teu corpo, teus olhos, para qualquer coisa!
         Mas por favor, volta, volta, volta. Volta.
         Por favor, volta.
         É tudo que eu peço, tudo que eu imploro. Nem que seja para errarmos tudo de novo, mas não me deixe te perder de novo, não me deixe dar mais um suspiro sem você.

    - Em Tenebris

    2.1.14

    I've never meant to start a war


         Eu nunca quis começar uma guerra.
         Não queria isso de portas batendo, gritos no escuro, pertences devolvidos. Não queria ter que esquecer, fingir que não aconteceu. Não queria virar as costas, ignorar, apagar, desistir. Não queria ter que ouvir seus desaforos todas as vezes que me dirigisse a palavra. Não queria ter que ouvir que eu nunca te amei, que eu nunca fui capaz de te amar do jeito que você merecia.
        Apesar de você estar mais do que certo nisso.
        Que eu nunca te amei? Mentira. Que eu nunca fui capaz de te amar do jeito que você merecia? Verdade. A mais dolorida delas. Te amei milhões de vezes mais do que você um dia mereceu. Te amei quando eu precisava te odiar, te amei quando eu precisava virar as costas e ir embora, te amei todas as vezes em que nem eu acreditei que seria capaz. Te amei em todos os momentos que você menos mereceu. E o pior: te amei ainda mais. Te amei quando você não me amou.
        E mesmo assim, venho ouvir que não te dei o amor que você mereceu. Não dei mesmo e nem um dia pretendo dar, não mais.
        Se hoje você para e vê que não tem mais aquela que sabia de cor suas tarefas do dia ou como fazer o strogonoff que você ama e se arrepende, ó meu bem, meu trabalho foi bem feito.
        Por todos esses intermináveis meses, eu só queria fazer com que você precisasse de mim. E você precisou, apesar de nunca ter admitido. Precisou de mim pra solucionar seus problemas, engomar suas camisas de trabalho e comprar presente pra sua mãe. Até pra atravessar uma rua sem mim você se sentia perdido, meu amor. Você precisou de mim muito mais do que eu um dia precisei de você, apesar de eu sempre ter te amado mais.
        Eu queria entender o motivo, o por quê de você querer tanto acabar com todas as memórias boas que me sobraram da gente. Podia deixar assim, só com as palavras boas e momentos bons, de um jeito que romance nenhum seria capaz de apagar de mim e do meu coração. Eu queria dar outra chance pra acabar tudo bem, mas você nunca perdeu uma oportunidade de brigar comigo e acredito que não vai ser agora que isso vai mudar.
        Eu sinceramente poderia me armar, e ficar pronta pra guerra do jeito que você espera que eu fique mas, pela primeira vez desde que nos conhecemos, não vou fazer o que você espera que eu faça.
        Aqui eu deixo minhas armas, junto com tudo de bom que um dia esperei sentir por você novamente.

    - Em Tenebris                                                                  





    26.12.13

    É só isso, não tem mais jeito...



          Sei que deve estar se perguntando o que me fez voltar aqui depois de tanto tempo, e a resposta é simples: me deu saudade. 
          Foi assim, de repente. Puff: você.
          Depois de meses lembrei-me de você sem muitos motivos aparentes. Deu um aperto no peito, sabe? Daqueles de quero mais, de desejo de voltar no tempo. Não pra mudar tudo ou te dizer aquilo que eu nunca cheguei a dizer. Eu queria mudar nada, ter as mesmas conversas, brigas e juras inúteis daquilo que costumávamos chamar de amor. Queria te dizer, apenas e unicamente, que cinco anos não foi suficiente e que nem dez anos serão. 
          Uma vida não é suficiente, bem meu. Você continua vivo em todas as paredes, do mesmo jeito que costumava ser quando nelas ainda havia fotos suas. Quando nelas eu ainda guardava todos os seus bilhetinhos. 
          Quando você costumava existir, e nós também.   
          Você continua aqui, do lado esquerdo do peito. Não tão forte e sadio como antes, logicamente. Já abri muito espaço pra outros e sei que vou continuar abrindo. Vou continuar traçando essas linhas e linhas sem você, totalmente sem você, porque sua hora de voltar já passou, e junto com ela, foi-se minha esperança... Ah, já não era tempo de esperar.
          Mesmo assim, negar que é díficil ainda ver-te com aquela que nos separou, meu bem, eu não vou. Mas também não vou mentir dizendo que nenhuma ponta minha gostaria que tudo tivesse sido diferente e mais claro, mais simples pra nós dois. Muito menos dizer que quero que acabe logo, e que você perceba que isso tudo é tão palpável e frio, como eu sinceramente gostaria que fosse.
          Mas sei que não é... 
          Sei, mais do que ninguém, que hoje estás mais feliz do que nunca fora antes, de um jeito que eu nunca fui capaz de fazer-te. Sei também como sua alma implorava e agonizava por isso, meu bem e, por isso, não faria nada para estragar, nem em um milhão de anos. Não contaria a ela tudo que sei, não pularia em tua frente ou diria tudo que há meses sufoco na garganta para não te dizer. 
         Por nada no mundo, romperia a mais alta súplica do teu coração para outro coração.
         Mesmo que esse outro não seja o meu.

    - Em Tenebris
        

    7.9.13

    There's a hole in my heart where you used to be


         Queria começar dizendo que eu sinto sua falta.
         Não, não…
         Eu acho que eu não sinto sua falta, eu sinto falta de quem você era comigo. Ou de quem eu era quando eu estava com você. Ou de quem nós éramos juntos. Dizer que meu coração se aperta na nossa data, que eu nunca mais voltei a ir no nosso café da esquina e que eu guardo todas as suas e nossas fotos em uma caixa preta lacrada em baixo da minha cama.
         Que não faz mais tanto sentido dormir com a luz acesa, ou que meias velhas e furadas nunca mais foram engraçadas. Que Roberto late muito mais do que antes, e na mesma hora que você costumava chegar em casa, todos os dias, ele ainda vai até a porta e te espera com o focinho encostado nela.
         Ontem achei aquela sua gravata preta listrada com vermelho que você tanto gostava. Você a tinha perdido no verão de 2010, lembra? Ela estava jogada no meio de minhas bagunças perto do sótão. 2010. Já faz três anos desde que você se foi. Confirma?
         Três anos. E eu ainda não sei bem o motivo, não sei o que foi nem o que ficou… Se é que ficou.
         Não sei onde você está, onde você queria estar e se realmente decidiu partir por minha causa. Não sei o que lhe incomodava tanto no nosso amor. Ele me parecia tão certo...
         Nossas palavras cruzadas, noites viradas, filmes, musicas, danças, cafés, infinitas macarronadas… Minha família gostava tanto de você… E a sua nem se fala! Sua mãe ainda me liga as vezes, sabia?
         Queria que você fizesse o mesmo.
         Roberto dormiu em cima de sua gravata essa noite. Bem de leve ainda há um pouco de seu cheiro lá, e eu sei que Roberto sente sua falta infinitamente. Não é só ele. Confesso que eu também. Que minha vida nunca mais foi a mesma e que nem sei se vai voltar a ser… Que raramente fico feliz e quando fico é algo tão rápido que mal faz cócegas.
         Lembro de quando estávamos juntos e do quanto eu era feliz.
         Do quanto você me fazia bem.
         Não quero lhe importunar, peço que leia esta carta com muito amor e piedade. Apareça aqui para fazer um cafuné em Roberto… Prometo não conversar. Prometo que não terá lágrimas ou tentativas frustradas de um recomeço. E queria terminar, dizendo que lhe amo com todo o meu pequeno coração, que por mais que pequeno, guarda um amor muito, mas muito maior que eu.

    - Em Tenebris

    16.8.13

    You're gonna miss me when i'm gone


          Repare que nossos destinos já não se cruzam mais.
          Você aparece uma hora depois, no mesmo lugar que eu estava.
          Eu vou para o lugar de qual você acabou de sair.
          Estou no mercado, você vai pro posto ao lado, e sai pouco antes de conseguir me ver.
          Nossas ruas parecem estar cada vez mais longe, nossos horários não batem mais. Não há mais tempo, não há mais acaso. O destino brigou com a gente, e decidiu que se nós não tomamos uma atitude, não é ele quem vai tomar. Lavou as mãos, disse que não é pra ser, não adianta insistir.
          Cada um pro seu lado, cada um na sua. Eu por mim, você por você. O tempo vai nos dizer o que fazer.
          Mas às vezes eu ainda tenho um pouco de esperança, sabe? Por mais que tudo grite para que eu não tenha. Por mais que o tempo, os dias, as horas, as pessoas, as paredes, os estranhos, as outras, os outros, os lugares, o destino, minha família, meus amigos, me digam pra esquecer. “Vai passar” “você um dia vai esquecer” “para de pensar, não procura, esquece que ele existe, desapega, apaga o contato”.
          Eu não consigo.
          Nem te ver com ela me faz querer desistir. Algo em toda essa história não faz com que eu queria desistir. Algo em toda essa história não me dá forças pra desistir. Não me dá coragem. Não me dá algo sólido. Mas imagino que você vá sentir saudade. Na verdade, espero que vá. Que vá sentir saudade de mim, do meu jeito estranho e de todas as coisas que você um dia disse gostar.
          Afinal, quem um dia escreverá sobre você como eu escrevi?
          O destino desistiu de mim. Eu sei, você sabe. Todo mundo desistiu. Você desistiu. Mas é que... eu não consigo. Só isso. Ou, tudo isso. Nada disso. Eu te prometo que estou tentando. Todos os dias penso nisso, penso em um jeito de sair, procuro a porta de saída em todos os cantos aqui dentro. Mas eu não consigo achar. Tenho uma chave nas mãos, tenho uma corda amarrada aos pés, tenho algemas e laços muito bem dados...
          Laços que talvez sejam nós. Por nós – eu e você.
          Um “nós” meio imaginário, totalmente. Mas existe, em algum lugar eu sei que existe.
          Nos meus sonhos.
          Lá o “nós” tem cor, música, voz, cheiro, movimento. Lá eu posso sentir como se existíssemos de verdade.
          E talvez seja esse o problema, e a solução é dormir. Não um cochilo, não uma noite. Não! Porque eu sempre acabo do mesmo jeito: acordando e te perdendo. Você foge de mim quando meus olhos estão abertos. Só nos meus sonhos eu posso te encontrar.
         Boa noite, amor.
         Nos encontraremos mais tarde.

    - Em Tenebris.



    11.8.13

    You're the reason I don't love anything


         Você estava lá ontem de novo. Com aquele jeitão de sempre, largado, jogado; sem ligar pra ninguém, sem ligar pra mim. Me olhava do mesmo jeito de sempre, sorriso de lado, mãos nos bolsos, cabelo recém-cortado. Usava aquele mesmo tênis de sempre, aquela mesma camisa, aquele mesmo topete. Andava do mesmo jeito de sempre, empurrando as costas pra trás e as pernas pra frente, como se o mundo não dependesse disso. Estava lindo, do mesmo jeito de sempre. 
        Lembro-me de ter coçado os olhos várias vezes quando te vi. Me belisquei, pisquei, senti as pernas tremerem, o coração acelerar, a garganta dar nó. Você estava ali, depois de todo aquele tempo. Estava ali parado, e olhando através de mim, como se não me conhecesse, como se nunca tivesse me visto antes, como se não me enxergasse. Você olhava o relógio incessantemente e fechava o sorriso. Olhava para os lados, batia os pés. As vezes voltava o olhar na minha direção e sorria de novo, e eu sorria, como se o mundo dependesse disso. 
         Sentei-me no banco mais próximo. Te observei ali, em pé, de frente pra mim. Queria correr até você, te abraçar, te beijar, puxar seu cabelo, sentir teu cheiro, te dar uns tapas - sim, tapas! Você sabe que merece. Suspirei te olhando, apaixonada, enfeitiçada, perdida nos teus olhos cansados e tristes, como se eu não os visse há anos. E era como se fosse. Claro que era. Você tinha sumido, e eu também. Tinha te pedido pra me esquecer, pra me deixar te esquecer, e você, pela primeira vez, me obedeceu. 
         Mas você estava ali. Estava sim. Eu podia ver, podia enxergar, podia sentir sua atmosfera ali tão próxima da minha. Não podia te tocar se esticasse os braços; me requeria mais esforços, levantar, dar cinco ou seis passos e ali você estaria, a um toque de mim. Não sei o que me prendia naquele banco, talvez eu estivesse com medo, talvez fosse teu olhar vazio me incomodando. Talvez o problema seria estar te olhando ali tão diretamente, e você fingir que eu não estava ali.
         Queria saber o que você estava fazendo, o que estava esperando. No fundo eu sabia, tinha certeza. Mas não queria acreditar, tinha que ser mentira! E então ela chegou. 
          Você sorriu. 
          Abriu os braços. 
          Ela também.
          Se aproximaram.  
          Olharam nos olhos.
          E ali, na minha frente, desrespeitando meu coração machucado, se beijaram.
          Suavemente. Calmamente. Demoradamente.
         Senti um oceano se formar em meus olhos, um garfo descer raspando minha garganta, um alçapão se abrir embaixo de meus pés. Caí.
           Fundo. No escuro. Sozinha.
         O buraco não tinha fundo. Eu continuava a cair, e cair, e cair. Todos aqueles inúmeros dias desde a primeira quinta-feira serviam de cenário para meu precipício. As lembranças em preto e branco passando pelos meus olhos, meu coração se apertando até sumir. Ploft. E era como se ele nunca tivesse existido. Não havia mais sentimento, do lugar em que você costumava morar agora sobrava um buraco grande e fundo, como nesse em que caí.
         Então parei de cair. Uma escuridão ainda maior me engolia, me puxava. Um grito alto se ecoou em meus ouvidos. Eu conhecia aquela voz. 
          Era a minha voz.
          Eu estava em minha cama, suada, tremendo. Os móveis girando, as luzes piscando. Estava confusa, não me lembrava de nada, quase. Minhas costas doíam como se eu tivesse com todas as costelas quebradas, como se eu tivesse caído de um precipício. Abri os olhos ainda com medo, ainda com dor. Meu peito sangrava, bem ali onde era para estar um coração.
         Olhei pra frente.
         Te enxerguei.
         Estava com aquele jeitão de sempre, largado, jogado; sem ligar pra ninguém, sem ligar pra mim. Me olhava do mesmo jeito de sempre, sorriso de lado, com uma mão no bolso, cabelo recém-cortado. Usava aquele mesmo tênis de sempre, aquela mesma camisa, aquele mesmo topete. Andava do mesmo jeito de sempre, empurrando as costas pra trás e as pernas pra frente, como se o mundo não dependesse disso. Estava lindo, do mesmo jeito de sempre. 
         Mas segurava com a mão livre uma coisa pequena e ensanguentada. Uma coisa pequena e trêmula, como se fosse parar seus movimentos a qualquer instante.
         Segurava meu coração, e continuava sorrindo, como se fosse ficar tudo bem.
         
    - Em Tenebris     

    29.7.13

    Titanium


          Depois de eu ter voltado a acreditar que tinha acabado, ela voltou.
          Voltou forte. Segura. Firme e persistente.
          Voltou sem medo de mim... Afinal, por que teria?
          Eu que tenho medo dela. E muito. Quase me matou duas vezes.
          Tão apaixonada por mim, queria me levar, me ter pra ela. Egoísta, não quer me dividir com ninguém.
          A ultima vez foi mais forte. Minha família até percebeu. Foi mais funda, mais severa. Ela não queria me deixar aqui. Me tomou pelo pescoço, apertou até eu não aguentar mais. Ela queria me sufocar.
          Conseguiu.
          Ainda tenho algumas marcas, se quiserem ver.
          Sugou minhas forças, mostrou meus ossos. Me derrubou.
          Fui parar numa cama que não era minha e que já tinha sido de várias outras pessoas, que assim como eu, um dia quase tiveram - ou, desaventuradas, tiveram - a vida sugada por alguém que parecia amigo. Por alguém, que por motivo nenhum, o detestava.
          Ela me detesta, estou certa disso. Vive me perturbando de várias formas e jeitos. Por mais que eu feche os ouvidos, ela sempre consegue me fazer ouvir. Ela me puxa pro canto e sussurra baixinho as mesmas frases de sempre. Frases montadas por um total de trinta palavras, não mais do que isso. Mas as palavras que me dilaceram, que me fazem tremer, que me quebram ainda mais, são apenas seis.
          Ela faz com que eu sinta tudo que eu mais odeio sentir.
          Cutuca, espreme, arranha, aperta, suga, até eu me render e deixar destruir. Deixar destruir tanto por dentro, ao ponto de destruir por fora.
          Eu já fui mais forte do que isso.
          Eu já fui capaz de calar a boca dela e me manter segura. Eu já fui capaz de suportar.
          Não mais.
          Hoje ela é muito mais forte do que eu, e provou isso me levando para aquela cama que por nove dias dormi. Lá, naquele lugar horroroso, decidi que não ia mais ser assim. E por um bom tempo ela sumiu. Deu uma volta, foi procurar outras pessoas. Mas ela sentiu saudade e me contou que só estava dormindo durante todo esse tempo.
         O meu medo não foi o suficiente pra ela ir embora.
         Tá começando a doer de novo.
         Meus ossos já querem aparecer e, às vezes, eu também quero que eles apareçam. Eu sei que eu não posso. Ela vai conseguir o que quer se eu fraquejar assim.
         Temo que um dia ela me leve de verdade. Temo que um dia eu desista de lutar.
         Mas o pior de tudo isso é que eu temo um dia... querer ser levada.

     - Em Tenebris        
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