• Categoria: purgare
  • 1.8.18

    Piece of heaven



    Eu estava embaixo d’água quando percebi. O silêncio abafado e a escuridão do mergulho me avisavam o que eu já tinha certeza: eu estava viva. E a única pessoa de quem eu realmente precisava me olhava pelo reflexo na água e sorria, tanto, depois de tanto tempo.

    Depois da tempestade,
    finalmente,
    o
    alivio.

    Sou as palavras que escrevo, sou os sentimentos que sinto, as pessoas que amo, os medos que me afligem, os sonhos que idealizo, as vontades que vivo – e também as que escondo. Sou os lugares que quero ir, os planos que faço, os livros que leio. Sou as lágrimas que escorrem pelo meu rosto, sou o sorriso que vem para curar. Sou o que sou e ponto, e já não há nada para mudar.

    O vento me beijava no rosto, o sol me chamava para dançar. Risadas ecoando ao meu redor e eu estava inteira. Sem mais. Sem acompanhamentos, sem excetos, sem motivos. Eu finalmente estava inteira.

    Com a vida toda diante de mim, sonhos queimando o peito, vontades subindo pela garganta. Gargalhadas ecoando no espaço, cabelos ao vento.

    O mundo é meu, o mundo é meu.
    O mundo é bom.
    E eu sou minha de novo.


    - Em Purgare

    28.7.15

    You can come out and see me


       Hoje deu vontade de escrever para você. Não como antes, mas de forma verdadeira. Hoje eu quis lembrar de tudo do jeito certo, com os olhos certos.
       Lembrar de como você ria da minha cara, me puxava pelo braço e me maltratava sem eu perceber. E eu achava que era amor. Achava que você estava cuidando de mim, desejando meu bem. Lembro quando você foi embora e deixou tudo para trás. Eu, nossa casa, nossas coisas, nosso nós. E eu tive que me reconstruir. Arrumar as malas bagunçadas, tirar as meias do chão, jogar fora teus restos e lembrar como é ficar sozinha.
       Eu tive que começar do zero, enquanto você seguia em frente sem olhar para trás.
       Precisei enfrentar o frio, a chuva, as flores murchando e o mundo girando cada vez mais rápido, sorrindo e dizendo que estava tudo bem. Tive que aceitar o não que eu sempre tive, mas me recusava a enxergar.
       Tive que te ver de braços dados com outra, rindo e brincando de forma que você, nem nos meus melhores e mais profundos sonhos, soube fazer comigo. Tive que caminhar sozinha, numa trilha longa e tortuosa, repleta de fotos nossas rasgadas pelo chão, noites sem dormir e queixos batendo, no rigoroso inverno que entrava pela janela, e corpo nenhum para me esquentar.
       E eu ainda amava você. Achava que sim.
       Eu acreditava que o que tínhamos não podia ser outra coisa, que não amor.
       Sorte a minha ter conhecido alguém para me arrastar de tudo aquilo. Me tirar das noites afundadas em bebidas caras e garrafas vazias, lábios desconhecidos e corpos sujos. Cigarros que queimavam meus dedos, olheiras mais fundas que as profundezas em que acharam o Titanic e coração fechado para quem quer que fosse.
       Que sorte a minha.
       Quem diria que aquele mar escuro e tortuoso viraria rio limpo e passageiro... Aconchegante, com toque, pernas entrelaçadas, risos soltos, abraço com cara de abrigo.
       Eu estava por um fio. E então, virei novelo. Virei tricot, virei plural. Entendi que o que tínhamos era feio, pobre, frio. Falso. E que você não era, nem nunca foi, quem eu achei que fosse. Você não era o amor da minha vida. Não era o único, nem o último, graças a deus.

    - Purgare






    22.12.14

    Presa no céu



        Não consigo pensar numa época em que as palavras não tenham feito parte da minha vida. Não lembro de um momento no qual escrever não tenha sido minha primeira resposta para algo. Talvez seja por isso que o desespero me inunda quando as palavras não pulam para o papel e transcrevem o que a mente e o coração berram tão aflitos. Domênico Massareto disse que o inferno é intransferível e individual, e esse é meu inferno - um deles. Talvez o maior.
        Meu inferno é não enxergar através de uma folha em branco. É não ver as palavras formando frases num piscar de olhos. É o silêncio de uma mente que grita.
        Às vezes tenho medo de quebrar e nunca mais escrever algo novo que me agrade.
        Disseram-me que essa angústia é apenas um bloqueio de criatividade, que num momento qualquer - durante a aula, por exemplo - ela voltaria, como se nunca tivesse ido embora. E aqui estou eu, no meio de uma das minhas aulas preferidas, escrevendo no canto do caderno sobre meu triste bloqueio.
        Seria este um desbloqueio?
        Escrever sobre a falta de criatividade é recuperá-la? Pa-ra-do-xos.
        A razão disto tudo talvez seja minha "felicidade". Talvez eu não esteja escrevendo justamente por estar feliz, e eu já disse antes que felicidade não põe pão na mesa e por isto não aprendi a falar sobre ela. Mas, se for assim de fato, prefiro morrer de fome.

     
    - Em Purgare 

    20.10.14

    Acts like summer and walks like rain


       Ele riu baixinho enquanto eu apagava o cigarro na areia naquela madrugada fria. A música tocava alto e todos os tipos de corpos e cheiros rondavam meus sentidos, provocando minha carne que um dia foi fraca; seus cabelos lisinhos voavam contra o vento e me faziam rir como nunca antes... O mundo exterior já não me importava.
        Eu, de tão famoso coração inquieto e cigano, pela primeira vez em sabe-lá-quanto-tempo respirava tranquila e não conseguia desviar os olhos de alguém. Custava-me acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, e vez ou outra eu até olhava em volta, procurava em outros corpos qualquer mínimo sinal de que meu eu são e consciente ainda era capaz de querer o desconhecido. Mas, infelizmente - ou felizmente -, encontrei-me procurando por ele em todos os outros e, sem sucesso na busca, sorri ao constatar que ela era inútil, afinal, o que eu queria estava bem ali em minha frente, com os cabelos voando, sorriso tímido no rosto e dedos aflitos segurando meus dedos aflitos. E naquele momento eu quis fugir inúmeras vezes.
        Quis fugir porque eu sentia medo por não estar sentindo medo nenhum. Sentia medo por estar em paz e sorridente. Sentia medo por não querer de fato fugir. Sentia medo por querer ficar e ficar e ficar. Sentia medo por estar feliz.
        Eu há tempos estava cansada de barulho e ele é silencio. Silencio rápido e despreocupado. Silencio sem ser silencio, que chegou brisa de inverno e aqueceu como vento quente de verão.
        O mar nos olhava e sussurrava palavras bonitas, e eu o via sorrir porque ele também estava ouvindo o que eu ouvia. O vento empurrava seu cheiro contra meu rosto como se não quisesse que eu o esquecesse por segundo algum, mas mal sabia o vento! O estrago já havia sido feito... E não existia caminho de volta. Mesmo se existisse! Eu não ousaria olhar para trás jamais.
        A urgência que eu senti todas as vezes em que ele tocou minha pele valia mais que qualquer outra coisa, mais que quaisquer outros toques, lábios, cheiros, peles. Na esquina de seu pescoço com o ombro foi onde encontrei meu cheiro preferido. Nas suas mãos encontrei abrigo e seus olhos seriam capazes de afogar-me mais rápido que qualquer um dos oceanos. Eu, sempre tão morta de medo de morrer afogada, hoje não aguentava de vontade de mergulhar e nunca mais emergir.


    - Em Purgare

    30.9.14

    Rótulo positivo de coisas ruins


        Vamos sentir porríssima nenhuma juntos? Parece-me muito interessante.
        Acalme-se, não vou sentir muito mais do que vontade da tua pele na minha novamente. Prometo nem passar perto do coração. Desviarei todos meus caminhos sentimentais ao sentir teu cheiro leve de cigarro, mas não posso confiar em meus instintos se mostrar-me tuas tatuagens novamente. Ainda ouço tua risada calma ao constatar que meu batom vermelho tinha ido embora e, confesso, poderia repassá-lo inúmeras vezes para dar-te o prazer de tirá-lo novamente.
        Não se preocupe comigo, meu bem. Sou tão livre quanto você e estou acostumada com idas e vindas de um cafajeste quase solitário. Aprendi a lidar com cada um de vocês. Cada qual com sua bebida preferida e jeito de me conquistar. A sua? Whiskey, apesar de aceitar algumas doses de tequila. E o jeito de me conquistar? Difícil. Talvez as tatuagens, a voz de timbre forte ou o toque quente e preciso. Você não tinha dúvidas e sabia muito bem o que fazer. Tua fumaça de cigarro não me incomoda, pelo contrário. Ela tem cheiro de uma segurança familiar que muito me atrai.
       Também não me responsabilizo. Você quis entrar nessa assim como eu quis. Talvez a sorte esteja em nosso favor, talvez os caminhos deem certo para que nada dê errado e tudo continue na mais precisa casualidade.
        Vou esperar-te com a mesma ansiedade da última vez. Quero ver-te com a mesma vontade de antes. Leve um maço de cigarros e um isqueiro que você enxergue a cor. Sem hora marcada, sem complicações, sem medo. Vamos encontrar um escuro calmo e sem interrupções, poderemos terminar tudo aquilo que não terminamos antes. Temos todo o tempo do mundo. Não vamos deixar com que ele se esgote.


    - Em Purgare.

    6.6.14

    Não é mais cedo



       Hoje eu me lembrei dele. Sem rancor, saudade, raiva ou tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, enfim, o tempo passou. Não o vejo há meses, quase um ano. Desde nossa última briga e do final cheio de gritos e palavras feias. Não sei como está seu cabelo, suas roupas, suas mãos que eu tanto gostava, seu sorriso que me tirava o sono. Não sei se está bem, se está namorando, se está mal, se está vivo. Ele desapareceu da minha vida, assim como eu desapareci da vida dele.
        Se eu dissesse que um dia acreditei que duraríamos pra sempre estaria mentindo. Desde o primeiro beijo eu soube que não duraríamos mais de três meses. Ele era hiperativo demais, rápido demais, louco demais. Mas era engraçado insistir no que eu sabia que não ia dar certo. Era divertido, excitante. É egoísta da minha parte, confesso e reconheço, mas não passa da verdade.
        Eu nunca quis nada com nada. Não com ninguém, mas com ele em especial. Tinha defeitos demais, manias demais, diferenças demais e eu não estava disposta à me adaptar.
        Nunca estive.
        Admito que fiz o que queria dele. De certa forma precisava sair por cima de alguma história alguma vez. Estava tão cheia de me arrastar atrás dos outros e mendigar por amor que queria pelo menos uma vez estar do outro lado. Queria fazer sentir o que já haviam me feito sentir antes e hoje sei que não me arrependo. Em um caleidoscópio de memórias me lembro de tudo o que passou... Confesso que me esqueci de muitas coisas. Palavras perdidas, sentimentos esquecidos, incertezas e cenas escuras, mas me lembro de algo. Me lembro dos nossos beijos afobados nas ruas escuras, as músicas altas, o cheiro de cigarro que não saía de mim.
        Lembro das juras infinitas, das promessas, das vontades. Mas também lembro da dor. Da prisão em que me trancaram por dez dias e os olhos aflitos e arrependidos dele. Ele não sabia que eu estava ali por causa dele, mas cuidava de mim como se soubesse. Como se soubesse segurava minhas mãos, beijava minhas têmporas e dizia que tudo ia ficar bem.
        Nunca mais nos escrevemos; não havia mais o que dizer. Tudo já havia sido dito, mesmo que de forma tão errônea e precipitada. Cheguei a saber por um certo tempo quem ele era de verdade, mas me entristeço ao saber que ele nunca tomou conhecimento de quem eu realmente sou e era. Hoje, se o encontrasse na rua, custaria à reconhecê-lo, mas também não faria questão disso.

    - Em Purgare                        

    11.5.14

    The one I will always love - Dia das Mães


        Esse texto é uma ode à minha mãezinha, dona Eliana, tão pura e incomparável que temo não saber usar das melhores palavras para me dirigir à ela.

        Tenho dezessete anos e muitas caraminholas na cabeça. Muita vontade de crescer e fugir e sonhar e concluir e ir atrás e ser alguém na vida um dia. Meu pai aplaude e impulsiona, já a dona Eliana...
        Ela não gosta disso. Quer dizer, gosta até onde eu moro com ela e não vou embora jamais, assim que essa linha é cruzada a história já é outra! Vive me rodeando de preocupações: "morar sozinha? em São Paulo? Ah não... Londrina é aqui pertinho!"; medos: "você vai ter que dividir apartamento com alguém!";  ameaças: "você tem que me provar que tem juízo!"; incertezas "não sei se isso vai ser bom..."; súplicas: "como vou fazer pra te visitar de 15 em 15 dias? Não dá! Tenho seu pai e seu irmão aqui, eles fazem bagunça, não posso deixá-los!"; chantagens emocionais: "você não gosta de mim né? Pode falar! Você não me ama!"; provocações: "mas você nem sabe cozinhar! Não sabe lavar roupa! Não vou estar lá pra fazer strogonoff pra você!". Mas mal sabe ela...
         Mal sabe ela que ao mesmo tempo que eu morro de vontade de alçar voo, fico aterrorizada só de pensar em ficar longe dela, da panqueca que só ela sabe fazer, do colo que só mãe tem, das nossas tardes juntas, de irmos ao cinema, de dividir as fofocas, de reclamar da vida e até de brigar com ela. Não há ninguém no mundo como a mãe da gente. E, cá entre nós, não há ninguém no mundo como a minha mãe.
         Ela é tão ela que as vezes até me irrita. Tão calma, meiga, querida, dedicada, esforçada, preocupada, engraçada, divertida... Tão mãezinha, tão indefesa, que tenho medo de me jogar no mundo e deixar ela para trás. Quando eu for embora, quem vai ficar pra falar dos homens bonitos da novela e da cidade pra ela? Quem vai lavar a louça de domingo e varrer a casa? Quem vai assistir filme com ela? Quem vai abraçar ela por cima porque por baixo não dá mais? Quem vai pegar emprestado as roupas dela? Ela vai pegar emprestado as roupas de quem? Quem vai comprar sapatos com ela? Pra quem eu vou contar das minhas inúmeras paixões?
         Vou ter que te levar comigo, mãe.
         Te levar comigo para todo e qualquer lado que eu vá. E essa é com certeza uma das minhas maiores vontades. Pena que não dá pra morar junto pra sempre, né? Um dia vai chegar a hora de crescer. Mas, mãe, sua presença na minha vida nunca vai deixar de ser importante. É impossível que um dia esse amor tão imensurável diminua ou deixe de existir. Perdoe o clichê, mas sei que às vezes não sou a filha que você tanto merece. Sei que falo demais e às vezes de menos. Que gosto de chocar e ir contra as vontades do mundo, que sou preguiçosa e troco muitos momentos importantes por um bom tempo dormindo... Mas isso não importa e não muda nem uma vírgula do que eu sinto. Nem hoje, amanhã ou em tantos anos.
        Você é meu exemplo de força e de coragem. Esteve do meu lado em absolutamente todos os momentos, sempre disposta a me mostrar o melhor caminho. Me dá sempre esperança de que um dia melhor vai chegar, que "o que é meu tá guardado", me proporciona uma paz que ninguém mais pode dar, é meu espelho, meu exemplo, meu porto seguro. Sempre tão decidida e disposta a fazer o melhor para aqueles que ama, sem se importar com o que te vai custar. Talvez ser mãe seja sobre isso, sobre doar uma parte de você pelo outro, e espero um dia ser uma mãe tão maravilhosa quanto você, tão inteligente e cheia de qualidades.
        Você é incrível, mãe. A melhor de todas.
        E eu te amo mais do que cabe em palavras.
        Feliz dia das mães, mãezinha.

    - Em Purgare


    4.5.14

    This is the end of the road for us


        Quando você foi embora eu te avisei que seria a última vez. Que não adiantaria o que quer que você fizesse ou viesse me dizer, eu não mudaria de opinião. Prometi pra mim e para quem quisesse ouvir que eu e você não existiria mais. Nem hoje, amanhã ou em um milhão de anos.
         Não enquanto você continuasse sendo o mesmo cara de sempre.
         Quando você se foi e disse que comigo não dava mais, eu pela primeira vez concordei. Pela primeira vez  em um ano e tantos meses admiti que insistir na nossa história é como esperar chuva na seca, e não estamos em um filme adolescente onde esse seria exatamente o momento em que começaria a chover sobre nossas cabeças. Me conheço bem o suficiente para dizer que eu não esperava um dia tomar essa decisão, esperava te empurrar pela minha vida por muito tempo ainda, afinal, você sabe que é muito do meu tipo acreditar no teu melhor sempre e nunca desistir... Mas também te conheço muito bem, meu bem, e é exatamente por isso que sei que esse é o nosso fim. Você nunca foi capaz de mudar, nem por mim, por você ou qualquer outra pessoa, e não vai ser agora, justo agora, que você vai enfim conseguir.
         Nem se você mudasse.
         Nem se chovesse sobre nós agora.
         Tudo uma hora chega ao seu fim, e esse é o nosso. A quem queremos enganar? As reconciliações já não adiantam mais há um certo tempo, e as brigas prevalecem muito mais. Teus defeitos, que antes eram invisíveis aos meus olhos, hoje são insuportáveis e um passo meu fora da linha já te é suficiente para virar as costas e ir embora. Você volta, sempre volta, mas sempre com um sorriso a menos e um ciúme a mais.
         Talvez nós apenas tenhamos nos dado uma chance na hora e na época errada. Talvez daqui anos vamos ter paciência e amor o suficiente para começar de novo, e então tudo será lindo e cheio de cor como era no começo. Sem mais brigas, gritos, desconfiança e provocações. Do mesmo jeito que começou, cheio de vergonhas e desejos ininterruptos. Sem muita intimidade mas tanta vontade...
         A gente se gostou muito um dia. Te amei, quase. E ainda te gosto tanto... E é por isso que estou indo embora. Pra não acabar com o respeito e carinho que ainda tenho por ti. Talvez mais tarde, talvez depois... Mas não hoje.
         Não mais.

    - Em Purgare
      

       

    17.2.14

    For you I will


        Teus olhos são profundas águas escuras e traiçoeiras, nas quais me afundo sempre que os encontro.
        Olhos dissimulados, encantadores, misteriosos, indecifráveis. Com o poder de me fazer levitar e despencar em instantes. Poder que nenhum outro par de olhos vez alguma possuiu.
        Esse poder é só seu.
        Sempre foi e sempre será, da mesma forma como cada centímetro de minha pele, meus olhos, meus cabelos, minha boca. E pensar que levei tempo demais pra perceber que era você o dono de tudo isso. Meses, semanas, brigas, reconciliações. Um ano pra perceber que era você e sempre tinha sido você. Mesmo quando eu jurei, ah e como jurei, que nunca desejaria teu corpo no meu, tua boca na minha, teu cheiro misturado ao meu.
        Teríamos economizado tanto tempo se tivesse eu descoberto isso antes. Pena que minha cuca confusa nunca foi boa em amar, principalmente em amar você.
        Eu quebrei o que tínhamos, eu sei. E me desculpe por isso. E por todo o resto. Pelas lágrimas, por ter dito que não queria quando queria e por ter te feito pensar tudo aquilo que não é verdade. Por ter te feito duvidar do que eu sentia e por hoje estar aqui, com o coração nas mãos e os joelhos tremendo, ansiando por algo que eu nunca esperei um dia pedir: você.
        Foi do nada, sabe? De uma hora para outra percebi o que estava acontecendo. Foi olhando para a imensidão dos teus olhos que percebi que minhas gavetas de certezas já tinham sido esvaziadas e, que aquela caixa na qual te guardei no verão passado já estava gritando para ser aberta.
        Apesar de eu saber que as coisas já não serão como antes, amor... Eu mudei, você mudou. Mudamos e isso era inevitável, e todas as outras coisas que um dia andaram em nosso favor, hoje andam contra. Não posso reclamar, certo? A culpa é tão minha que nem sei, mas eu sempre pequei pelo excesso: antes pela falta dele e hoje pelo exagero.
        Mas eu, de coração, espero que ainda há tempo. Que o relógio ainda bata as horas, dizendo baixinho que você vem.... Que eu não serei abandonada como abandonei e posso prometer que não vou fugir. Nem hoje, nem amanhã, amor. Nem depois.
        Por você eu fico.
        Fico pra sempre. Todos os dias, até o final deles. Sem mais perguntas ou reclamações, deixando as coisas acontecerem sem a pressa da última vez. Sendo apenas eu e querendo que seja apenas você.
        Por favor.
        Vamos tentar de novo, insistir de novo, procurar de novo. Nossa história era tão linda pra ter acabado como acabou... Não se preocupe, meu amor, eu já sou outra. Não sou mais aquela que antes não tinha calma e só queria pressa. Aquela outra não era sua, não podia ser! Mas essa é. E vai continuar sendo, por todos os verões, até o mundo acabar.

    - Em Purgare
       

    24.1.14

    Everybody's gonna love today


         Demorei muito para perceber quem você era na minha vida: amigo, irmão, confidente, amor, tudo que eu sempre quis.
         Você era o tipo que me jogava contra a parede e me fazia implorar por mais. Ligava de madrugada, contava seus problemas e sempre estava pronto para ouvir os meus... Ouvia minhas músicas preferidas e me levava para assistir futebol com seus amigos. Nunca desligava o celular e sempre me dizia onde estava. Namorados? Nunca fomos.
         Éramos mais do que isso.
         Éramos amigos de alma, de corpo, de beijo, de carinho, de briga, de fome, de pele, de cama, de festa, de dor. Eu era tudo pra você, e você tudo pra mim. Sempre foi assim, e nem sei em que ponto da estrada começou: se foi logo que nos conhecemos ou pouco depois... Mas sei que te amei logo em que pus meus olhos em você e, por muito tempo soube que serias meu, de um jeito ou de outro.
         Soube que lhe acolheria em meu colo por profundas noites e que beijaria teus lábios assim que me desse vontade. Soube, desde a primeira vez, que você seria mais, muito mais, do que qualquer outro que já tenha passado em minha vida. Que tuas pegadas formariam caminhos em minha alma e que nem em um milhão de anos eu seria capaz de apagá-las.
         Desde o inicio soube que ia te amar. Te amar muito. De alma, de corpo, de coração, de vento, de sol, de chuva, de mar, de céu, de terra. E tive certeza quando enfim me mudei, tomei coragem e fui embora, juntei minhas tralhas e quis, apenas, viver contigo. Sem qualquer compromisso ou implicações, eu seria tanto do mundo quanto sua e você, idem. Dormiríamos juntos quando desse e separados, quando desse também. Conversaríamos noite adentro, jogaríamos Scrabble e assistiríamos à qualquer novela que estivesse passando. Teríamos um cachorro, talvez dois, e muita briga para criar. Sem ciúmes ou dependências, nosso plano era ser feliz. Era dividir os trabalhos da faculdade e tomar café da manhã na padaria da esquina todos os dias. Era pagar as contas, fazer mercado juntos e nunca, mas nunca, abandonar. O plano consistia em suportar o outro, na miséria, depressão, bebedeiras, extrema felicidade e qualquer outro relacionamento.
          Mas foi quando eu entendi que não queria dormir se não fosse contigo ou beijar alguém que não fosse você, que percebi que estávamos no caminho errado, por mais certo que parecesse e, que o plano nunca daria certo. Que tuas mãos já eram feitas para se entrelaçarem nas minhas e que nada era feliz sem você. Foi quando ouvi São Paulo gritar teu nome e Maringá, também.
           Foi quando felicidade já não era algo, era alguém.

     - Em Purgare
       

    10.11.13

    José



    Telhado, 10 de novembro de 2009.
           
                  Querido José,
       
          Te vi na rua hoje. Você usava aquela camiseta branca que eu sempre disse que te deixava gordo, a calça preta que te dei algumas primaveras atrás e o maldito tênis verde que você não tira do pé. Seu cabelo estava daquele mesmo jeitinho descabelado de sempre. Daquele jeitinho que eu sempre gostei tanto... Você estava vestido com o nosso passado, Zé. Pensei em ir até você e te explicar tudo do meu jeito. Sim, daquele jeito meu que você sempre disse que não dizia nada, daquele jeito que te estressava e te fazia dormir de bico. Pensei em ir te dizer todos os motivos que me levaram a partir, e te implorar para que não pensasse que eu fui por não te amar.
        É o contrário disso, Zé.
        Fui embora porque te amava demais. Tanto que doía. 
        Fui embora porque não sabia mais como lidar com seu jeito estúpido de ser e ver as coisas. Fui embora porque tive medo, Zé. Muito medo.
         Mas te ver ali diante de mim e não poder fazer nada me tirou o chão novamente. Me fez querer gritar, correr até você e pedir desculpas, pedir pra esquecer tudo e pra lembrar do que foi bom, porque foi muito bom, Zé.
        No final acabei sem coragem, como sempre. E sei que se você estivesse do meu lado teria brigado comigo e ido embora, dizendo que gente sem coragem é gente que não vive. E você sempre esteve certo... Não só nisso, mas em tudo. Me perdoa por admitir isso só agora?
        Então te gritei. E você ouviu. Virou-se e procurou da onde vinha a voz que tinha lhe chamado. Esperei sua reação e fui embora feliz.
        Eu esperei a sua reação Zé, mas não por você. Não mais.

                                                                  Sem mágoas, 
                                                                        Com amor. 

    - Em Purgare
       


       

    20.8.13

    It will, finally, turn to dust


          Duzentos e trinta e sete metros do chão, vento forte, cabelos soltos, punhos cerrados, olhos fechados. Pele suada e trêmula pressionada contra a única corda que ainda me mantinha segura.
          Não era uma das minhas melhores idéias, não mesmo.
          Minhas canelas nuas tremiam tanto que tive medo de desmaiar, meu cabelo atrapalhava minha visão e eu tentava ajustar o cinto que prendia minha cintura em uma grande corda de ferro. Eu precisava arrancar a casca de tristeza que ainda habitava meu coração, e só seria dessa forma que eu conseguiria.
          Eu tinha 10 segundos para fazer o que queria.
          Dez segundos seria tempo suficiente.
          “Muita coisa pode acontecer em dez segundos”, pensei. Olhei para baixo, respirei fundo três vezes, olhei para trás, e como se possível consegui ver o sorriso dele se abrindo, dizendo: “vai, vai ser melhor”. Minhas mãos já tremiam o suficiente para que eu desistisse, enquanto todas as vozes da minha cabeça gritavam para que eu não estragasse tudo agora, justo agora. “Eu tenho que por um fim nisso”, gritei mentalmente.
          Um homem alto e forte atrás de mim avisou que eu não podia perder tempo. “Vamos, anda, tem mais gente na fila. Lembre-se de abrir os braços, é mais fácil”, ele estendia a corda pela plataforma e iniciava uma contagem regressiva. “Está pronta?” ele gritou. “Estou!” respondi, não muito certa do que estava dizendo.
          Cinco.
          Quatro.
          Três.
          Dois.
          Um.

    Era hora. 

          Dei dois passos para trás e sai correndo em direção o mar, assim como o instrutor havia dito. O vento tomou conta do meu corpo, eu sorria involuntariamente. Era como voar. “Dez segundos”, pensei. A queda parecia não ter fim, o mar não chegava nunca. Abri os braços em sinal de liberdade, fechei os olhos, senti a brisa e pensei em todas as lágrimas que havia derramado por ele. Por todas as vezes que não dormi, que senti ciúmes, que me torturei, que deixei de sair, que perdi chances... Devia ter mais um segundo até a corda se livrar do meu pé e meu corpo chocar-se contra a água, e era nesse segundo que eu faria o que sempre quis: me libertaria de um ano de tanta tristeza.
         Abri os olhos, imaginei ele ao meu lado, e o deixei partir, enquanto eu mergulhava de cabeça – literalmente – em uma nova vida.
         E era verdade quando diziam que só não era feliz quem não queria.

    - Em Purgare  



    19.8.13

    It's alright, no one's got it all


         Estava assistindo “500 dias com ela” e tudo que eu conseguia pensar era em você e em como eu sou o Tom, e você a Summer, da nossa história. Em como eu amava todos os seus traços e te sentia amando os meus; em como eu fui feliz em todos os 341 dias com você. Mas aí tudo desmoronou antes que eu pudesse me agarrar em algo. Me vi num terreno novo e desconhecido, conheci o cara errado e achei que era o certo.
         Te perdi.
         Me perdi.
         Pausei o filme e fui buscar uma xícara de café, com leite porque te enjoa. Eu ainda lembro, mas queria esquecer... Como tudo nessa história. Mexi o leite devagar, olhando para o nada e pensando em tudo. O que antes era narrativa, hoje é relato.
         Poesia sem rima.
         Música sem melodia.
         Arco-íris sem cor.
         Menina feita de sonhos sem o chato mais legal de todos.
         E ai voltei para o filme, bem na cena em que Summer encontra Tom no parque, meses depois deles terem terminado. Quando Summer olha para Tom como se nele encontrasse tudo, mas não pudesse ficar com ele.Como se a semelhança até ai já não fosse o suficiente, Summer dá inicio a um interrogatório que só manteve meus pensamentos ainda mais ligados a você: “E se eu tivesse ido ao cinema? E se eu tivesse ido almoçar em outro lugar? E se eu tivesse chegado dez minutos depois? Era pra acontecer, Tom.”
         E foi assim, amor. Foi assim que eu percebi tudo que eu não tinha percebido antes.
         Eu estava naquela tarde, naquele salão, porque era pra eu te conhecer.
         E você estava lá, porque era pra me conhecer.
         Fomos cruciais na vida um do outro por muito tempo, mas as coisas não duram pra sempre, e disso eu já sabia. Meu papel foi cumprido, e o seu, também. Agora posso dizer com certeza, que você estava certo quando disse que eu sonhava alto demais, e que a queda era a pior parte de ser sonhadora assim.
         Você estava certo o tempo todo.
         Você só não sabia que tinha se tornado o meu maior sonho – nem eu sabia -, mas eu enfim cai.
         E está na hora de sonhar de novo...
         Mas agora, com outro alguém.

    - Em Purgare

    3.8.13

    For never was a story of more woe than this of Juliet and her Romeo


           Como já dizia Mario Quintana: “o amor é feito laço: vive dando voltas, se enrosca mas não embola.”   Quando é pra ser ele simplesmente... acontece. 
        Com o meu Romeu e a minha Julieta, foi assim. Eles se cruzaram de forma insignificante, ninguém acreditaria que eles iriam lutar tanto pra ficar juntos. O reino dele era muito longe do reino dela, e não tinha muito o que fazer quanto a isso. A não ser planos, infinitos planos. 
           Planos de fugir. De se casar. De ter quatro filhos. De lutar contra o que quer que fosse. De ficar juntos, custe o que custar. Qualquer um que os visse juntos acreditaria cegamente no amor que ali transbordava. Um amor puro e sincero, que nem a distância ou as infinitas brigas foram capazes de separar. Era difícil não se comover com a dor dos dois. Cada separação uma nova cicatriz que se formava, cada reencontro um curativo. Assim eles levavam... Assim eles eram felizes. O importante era ter um ao outro. E foi assim. 
          Um dia os vi juntos horas antes de uma das separações. Julieta estava vermelha, tremendo, os olhos mareados, o coração na mão. Romeu odiava a ver assim, queria poder levá-la consigo, a ter pra sempre. Ele tinha, claro que tinha, mas as vezes parecia que não. O destino era traiçoeiro com os dois, e eles sempre acabavam longe, unidos de coração pra coração. 
           A lua cheia brilhava por eles. A noite, que já escurecia a rua, agora servia de cenário para a cena final da peça. Eles choravam abraçados, já sem conseguir dizer nada. As lágrimas falavam por si só, os corações aflitos conversavam e tentavam acalmar um ao outro. “Calma, calma, volto já.” Ia voltar, ia sim! Iam se abraçar, e se amar muito mais do que qualquer outra vez antes. Como sempre foi. Cada reencontro um recomeço. Um motivo pra aumentar ainda mais aquele sentimento, que muitas vezes parecia – e era! – infinito. 
           O silêncio já era maior. Palavras estragariam qualquer coisa agora. “Eu te amo” “eu te amo” “vou voltar” “eu sei” “me espera?” “te espero!” “pra sempre?” “pra sempre!”. E era pra sempre, mal sabiam eles. Eu sempre soube que eles terminariam juntos, custasse o que custar. Era difícil ficar longe... Que se casassem então! E assim seria. E assim foi. Juntos. Pra sempre. 
           Força Romeu.
           Força Julieta. 
           Vai acabar bem. Vai sim.  
           E se ainda não está bem, é porque não chegou no final. 
         E lembrem-se, eu Frei Lourenço da história, estarei aqui pra ajudar que o final chegue logo. E chegue bem! 

    - Em purgare                    

    (Esse texto é uma homenagem para os meus amigos Isabela e João Pedro, que merecem ser muito felizes... Juntos)

    30.7.13

    It was hard and now I'm back


          Vivem me perguntando de você. Me perguntam da nossa história, me perguntam o que aconteceu, me perguntam por que eu parei de escrever. Me perguntam se eu esqueci, me perguntam se eu troquei seja-lá-quem-for por você, me perguntam se eu troquei você por seja-lá-quem-for.
          Eu nunca respondo. Não por não ter o que dizer - já que nesse caso eu teria muito. Não por medo ou tristeza. Não respondo porque nossa história é minha e você, na minha cabeça, é meu. Não respondo porque não é da conta e não cabe a ninguém resolver tudo o que aconteceu.
          Se é que de fato aconteceu alguma coisa. Um ano se passou e eu estou no mesmo lugar de antes. Por mais que eu tivesse lutado e me esforçado, por mais que eu tivesse certeza de que agora seria diferente. Com você, com a gente, não tem como ser diferente. Mas, presumo que não há mais o que fazer, certo? Você já virou a página. Quer dizer... Se é que um dia leu a mesma página que eu.
         Às vezes eu sinto como se nunca fosse acabar, sabe? Como se entre todas as pessoas do mundo, eu nunca fosse capaz de sentir por alguém tudo que sinto e senti por você. Às vezes eu sinto como se queimasse, como se não tivesse como eu me envolver mais. Às vezes eu até sinto que não é possível sentir mais... Mas eu sempre descubro que tem sim, e acabo sentindo mais.
         Hoje, dois meses depois de eu ter jurado nunca mais escrever sobre você, estou aqui me rendendo e dizendo que eu aceito todas as suas condições - suas marras, seus defeitos, meus defeitos, nossas brigas, nosso mau-humor, nossa distância - desde que eu possa continuar fantasiando sobre esse “nós”.
        Depois desses sessenta dias posso dizer que é como se eu tivesse feito uma longa viagem, e enfim estivesse voltando pra casa.

    - Em Purgare             

    1.7.13

    I'm gonna wear a smile and walk in the sun


    A gente passa a vida inteira achando que o amor é algo complicado. Achando que ele vai demorar anos, ou então nunca vai, aparecer. Mas ele chega rapido, de mansinho, pé ante pé. Chega como quem não quer nada e leva tudo. Chega com um olhar diferente, com um cheiro que se pode reconhecer há quilometros de distancia. Chega com um sorriso que de repente ilumina a escuridão, com um toque que acalma e silencia as tormentas. Não pede licença, não bate na porta, não tem tempo pra remediar ou tentar impedir. O amor chega, senta, pede um café e bolachas, se acomoda e nem cogita a ideia de ir embora.
    O amor é aquele tipo de visita que chega incomodando um pouquinho, fazendo barulho demais, mexendo nas coisas e falando alto. As vezes conta algumas piadas ruins, fica esperando ouvir risadas, e o pior: não vai embora enquanto não as escuta. O amor é engraçado, não faz cerimonia e até machuca um pouco. As vezes machuca muito. Mas as vezes não machuca nada, olha que interessante! E o mais interessante de tudo é que ele chegou pra mim, justo pra mim, sem machucar. Mas sem machucar nadinha. Ele incomoda; isso é verdade! Mas não é culpa dele. É culpa de todos os sentimentos que vem junto. O amor é um pacote, não chega sozinho: trás ciume, saudade, alegria, carencia, necessidade, paranoia e muita paz.
    No meu caso trouxe outras coisas também. Trouxe as mãos mais lindas do mundo, um cheirinho de trident de canela, um genio meio louco meio hiperativo meio estressado e totalmente perfeito. Um cabelo meio loiro meio castanho, bocas carnudas e tanta ternura. Veio em forma de guerreiro confuso, que é bom em tudo e sabe direitinho como me ganhar. Mas me deixa tão confusa… Não faz sentido, sabe? Um ser humano tão perfeito ter enxergado algo bom em alguém como eu. Mas é o tipo de coisa que a gente não explica, só sente e aproveita. E eu quero tanto aproveitar pra sempre…
    O amor é simples. É diferente de qualquer outra coisa que eu já tenha sentido antes. E por isso eu tenho tanta certeza de que é amor. É diferente das coisas que eu já li: tem a mesma essência mas é… Diferente. É mais calmo. É paciente. É respeitoso. Prazeroso, insaciável, inexorável. Que dá vontade de gritar aos quatro ventos, berrar, espernear, não sair do lado da pessoa amada jamais! Jamais!
    O amor é mais bonito do que eu achei que fosse. Tem um tom de azul e violeta. O amor coloca a gente pra cima, nos dá sentimentos que não nos deixam jamais querer algo menor. O amor mostra que nós somos mais, mas que ao mesmo tempo somos um. Eu e ele. Um só.

    - Em Purgare

    13.6.13

    Calmaria de mim


    Nunca tinha parado pra pensar em quanto tempo demora pra começar a amar alguém. Eu que sempre dei tanto valor a essa palavrinha hoje me vi numa enrascada: será que sei amar? Sinceramente, não tenho ideia do que é realmente amar alguém... No sentido romantico da palavra, claro. Não sei quais sãos os sintomas, como se tem o diagnóstico, se é possivel se prevenir... Parece que não.

    Eu não sei o que é amar, mas sei o que sinto toda vez que estou perto de você. Sei que cada centímetro do meu corpo se incendeia quando sinto tua pele na minha, teus lábios nos meus. Sei da agonia que é ter de ir embora depois de passar horas com você, sei do frio na barriga que sinto toda vez que ouço sua voz... E sei também que ela é o único som capaz de acalmar todas as tempestades daqui de dentro.

    É isso que você é, sabe? Metade loucura e metade paz. A loucura você sabe o por quê, nós dois juntos somos isso: a união da insanidade, o encaixe de algo que parecia não ter par. Mas é isso que a vida faz as vezes, dá voltas e voltas só pra gente parar em determinado lugar. Fazia tanto tempo que eu estava andando em circulos, e de repente você aparece e me puxa, me suga, me mostra o caminho. Me diz o que é certo e me deixa longe do errado. Você apareceu assim, pra me guiar.

    A paz vem pelo que você me passa. Seus olhos nos meus apagam em minha mente qualquer coisa de ruim que possa estar acontecendo. O que era furacão volta a ser vento de fim de tarde, daqueles que refrescam e terminam o dia com chave de ouro. Você faz isso comigo todos os dias. Falar com você é quase anestesia para todo o mau exterior. Só existe eu e você, eu e você, eu e você.

    Eu queria ir com calma, mas como se para um foguete em movimento? Não para. Vou ter que entrar nessa, me jogar de cabeça e torcer pra encontrar você lá embaixo pronto pra me segurar. E se quer saber? Eu não tenho dúvidas de que você vai estar lá. Ainda não tenho noção do que é amar alguém, mas tenho certeza de que você pode me ensinar melhor do que qualquer outro, e eu não tenho nada a perder com isso. Muito pelo contrário, tenho a ganhar. Você. 

    - Em Purgare  

    6.6.13

    The start of something new


    Não sei por onde começar. Você tem sempre tanto a falar e eu nem sei como iniciar uma redação sobre você. Talvez porque eu nem imaginava que iria escrever sobre nós assim tão rápido, mas rapidez é uma coisa que definitivamente combina com a gente. Foi tudo tão rápido, tão depressa. Foi como um tornado que passa e leva tudo sem nem olhar pra trás, bem, foi quase isso, a minha sorte foi que você olhou pra trás. Olhou pra mim.

    Achei engraçada a forma que suas mãos se encaixaram nas minhas. Você perguntou o por quê de eu ter gostado tanto delas e a resposta era essa, simplesmente encaixou. E eu achei isso diferente. Você é diferente. Até o seu beijo é diferente. É o tipo de beijo que tira o folêgo e me faz querer grudar em ti, não soltar nunca mais. Seu jeitinho de mexer as mãos, ou os pés também é diferente. Você olhava para os lados, depois focava em meus olhos, me puxava pra perto e pronto: eu já era sua e você nem sabia. Nem eu sabia. Soube só quando fui embora. Quando senti como se uma parte de mim tivesse ficado pra trás. Uma parte que eu não quero de volta, uma parte que eu deixo com você.

    Quando cheguei em casa senti aquele seu cheirinho que fica entre os ombros e o final do pescoço. Aquele cheiro que ninguém tem igual o de ninguém. Aquele cheiro que eu já senti tantas vezes em outros pescoços, mas que nenhum conseguiu ser tão bom quanto o seu. Acho que porque é seu, só por isso. E isso basta. E isso é o suficiente. Um pouco de você pelo resto da vida me parece justo. Uma vez só de você é covardia, eu não sou forte o suficiente pra isso. A vida já me tirou tantos amores, mas você eu não vou deixar ir embora. 

    - Em Purgare


    23.5.13

    To be with you



         Oi amorzinho, como você está? Eu estou bem e queria que você soubesse disso, você merece saber disso. Já faz um tempinho que não escrevo nem sobre, nem pra você, e isso é de se espantar se formos usar os ultimos dez meses como exemplo. Mas é que sabe, não ando sentindo a mesma necessidade que sentia em escrever sobre você. Antes isso me acalmava, me ajudava a esvaziar todo esse sentimento que eu carrego aqui no lado esquerdo do peito e ficar pronta pra próxima, mas parece que estou amadurecendo essa história: mentalmente e espiritualmente falando.
         Mas eu queria organizar essa gaveta de você. Porque depois de certo tempo precisei comprar uma gaveta e etiquetá-la com seu nome pra poder guardar tudo que lhe pertence aqui dentro. Seus jeitos, suas ações, palavras, manias e defeitos. E todas as outras coisas que rechearam todo esse nosso caminho. Ao retirar todo o conteudo da gaveta, tive uma surpresa meio empactante: reuno mais memórias imaginárias do que reais, e eu acho que isso não é bom, certo?
         Reuno imagens de cenas que nunca aconteceram, como os beijos apaixonados no sofá de casa, as brigas no meio da rua e as tardes passadas em sebos da cidade, onde a gente se perdia, se encontrava, ria e brigava, tudo em um curto espaço de tempo. O engraçado é que lembro-me de ter sido muito feliz imaginando tudo isso, mais feliz até do que quando fico ao lembrar das cenas que realmente aconteceram. Por exemplo: das cinco vezes que nos vimos, uma delas eu detesto sequer lembrar que aconteceu, já que com ela me vem uma tsunami de emoções: musica alta, gente demais, oxigênio de menos e muitos beijos... Mas beijos nos lábios errados, de sua parte e minha também! Não posso me esquecer que também errei naquela noite... Erro, pelo qual não posso deixar de mencionar, que me arrependo amargamente.
         Mas no meio disso tudo também percebo que fui muito feliz te ouvindo suspirar seus medos e aflições. Fui feliz em saber que durante esse tempo teu porto seguro e recosto pra alma era eu, assim como você era, e ainda é, o meu. Devo confessar que quase toda essa história é culpa minha, mas não falo da parte boa, agora já estou me referindo a parte ruim. Eu dei muitos passos em falso e deixei que situações-chave se perdessem muito rápido. Você também errou, e acredito que tenha gostado muito de mim, da mesma forma que eu gostei de você e não te disse, como você também não me disse. Tem coisa que a gente não precisa ouvir pra saber, certo?
         É claro feito água que nossas formas de gostar são bem distintas: eu mergulho de cabeça e você ainda está usando boias. Mas devo confessar outra coisa: ainda tenho esperança de te assistir tirando as boias e mergulhando até mim, com esse teu sorriso tão lindo e a mesma marra de sempre. Eu poderia até dizer que você estaria passando por cima do orgulho, mas quem diria... Nessa história a orgulhosa sou eu e isso também é claro feito água. Você inúmeras vezes veio falar comigo estando errado, e eu raramente fiz isso. Me perdoe por ter demorado tanto tempo pra perceber, mas eu estou tentando melhorar. Espero que você tenha percebido.
         Como já era de se esperar, um texto pra matar a saudade e, pasmem!, falar de coisa boa passou bastante do meu limite de caracteres. Não que exista um limite, mas as pessoas se cansam de textos longos demais. Não as julgo, eu também me cansaria se estivesse vendo essa história de fora, mas como estou assim tão de dentro, leria esse texto inúmeras vezes em alto em bom som pra te fazer ouvir ai da sua casa que meu coração continua de portas abertas pra você. Não estou afim de pensar no quão errada estou em fazer isso, mas vai que por uma breve distração do destino dessa vez eu esteja certa? Breve distração do destino nesse caso significa ter tido um histórico romantico horrivel durante dezesseis anos e ter uma leve esperança de que os cosmos enfim perdoaram as minhas burradas e me deixaram livre pra amar. Quem sabe, não é?
                                                                                              Com amor, daquela que - depois da minha ilustre e amada sogra - mais te quer bem na vida, e disso, você sabe muito bem.
                                                                                              Até qualquer dia, otário. 

    - Em Purgare (Fazia tempo que um desses não aparecia por aqui. Eu sei que textos felizes não tocam o coração de ninguém. Mas vocês se importam? Eu não.)  

    5.5.13

    How it used to be



         Você se lembra do Tägger? É, ele mesmo. Aquele ursinho de pelúcia branco que usava uma camiseta rosa de listras. Ele ficava em cima da cama ao lado dos outros, lembra? Isso. Claro que você não iria esquecer! Pois bem, eu havia esquecido. Há muito, mais precisamente um mês ou dois depois de você ter ido embora, não o via. Lembro-me de tê-lo guardado em uma caixa e a colocado na ultima prateleira do guarda-roupa, bem no fundo. Fiquei anos sem vê-lo, mal lembrava que ele existia. Até hoje à tarde. Tirei tudo do armário, limpei canto por canto e abri caixa por caixa... Inclusive a em que ele estava guardado.
        Abri o lacre que tinha feito e ali estava ele, risonho, olhando pra mim. Como quem diz “até que enfim lembrou-se de mim, mamãe”. Fiquei tão feliz por tê-lo encontrado... Mas muito triste por todos aqueles momentos que vieram à tona e eu havia trancado na caixa junto com ele. Como se tivessem acontecido ontem, as lembranças pularam em meu colo e acariciaram meu rosto, que naquela altura já estava tomado pelas lágrimas.
        A primeira coisa de que me lembrei foi do dia em que o nomeei. Ele estava triste e sem identidade há alguns dias, e como você sabe, eu preciso dar nome a todas as minhas pelúcias para poder dormir em paz. Você havia aparecido na minha vida há uns dois meses e já tinha mostrado que tinha chego pra ficar... Ou quase. Nada mais do que justo nomear o ursinho com o seu apelido, e assim foi. O pobre urso passou por muitos momentos tristes e felizes, assim como eu passei. Ele assistiu nossas brigas, reconciliações, declarações e todas as outras coisas que você tão bem conhece. Ele foi meu ombro amigo todas as vezes que você me fez chorar, e também foi o fiel escudeiro que escutou todas as palavras bonitas que eu costumava gastar com você.
        Ele foi tudo e um pouco mais pra mim. Igual você. Ele foi tudo que restou de nós. Ao contrário das conversas que foram deletadas, as cartas rasgadas, as fotos queimadas e os presentes despedaçados, eu simplesmente não consegui desfazer-me de algo que me deu tanto carinho por tanto tempo. Ele foi a minha prova física de que você foi real. Mas você foi embora e ele ficou, e cá entre nós, eu não ligaria se tivesse sido o contrário. 

    - Em Purgare   



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