• Categoria: textos
  • 8.3.19

    Sinto muito por sentir tanto


            Toda vez que quero escrever sobre você, eu coloco a mesma música. Acho que nem preciso dizer qual é, porque você deve saber bem. Quando quero fazer doer mais, lembro daquela madrugada, dos nossos corpos colados no escuro e Cartola tocando ao fundo, enquanto você me apresentava seus personagens preferidos e, vez ou outra, beijava o canto do meu pescoço – aquele lá, onde o cheiro de ninguém é igual ao de ninguém no mundo.
                Lembro disso e a saudade dói e quase sufoca.
              Lembro do ano novo, de você dizendo o que eu era pra você. Da gente se beijando depois da meia noite, de eu te entregando os potes da minha mãe – e hoje tenho certeza de que eles nunca vão voltar. Assim como você: também tenho certeza de que você não volta mais.
               Você nunca foi meu. Eu sempre fui sua. Do topo da cabeça ao dedinho do pé, desde aquele dia 22, eu sempre fui sua. Lembro da gente encostado no muro, do medo de acordar quem dormia, rindo e com a certeza de que no mundo só existíamos nós dois. Ninguém mais importava. A gente mal se conhecia e eu não tinha ideia de quanto tempo deveria reservar pra nós. Achei que seriam duas semanas, no máximo três. Jamais imaginei que duraríamos no novo ano.
              Olho a flor amassada colada com durex no meu caderno, a data meio apagada no canto, e quero sair correndo. Ir até sua casa, pelo caminho que tanto amei fazer durante todos os nossos dias, te ver abrindo o portão e te abraçar e pedir para nunca mais me deixar ir embora. Quero ficar. Quero me aninhar em você na sua cama gigante, quero me sentir escondida ali, naquele mundo de nós dois.
              Lembro das vezes que acordei embriagada de você, depois de uma madrugada toda ouvindo tua voz. Penso nas minhas piadas bobas que só você dava risada, penso nas suas piadas que você contava todos os dias. Penso em nós.
              O dia inteiro, eu penso em nós. Ontem lotei minha cabeça de qualquer coisa do mundo, só para não pensar na gente. Fiz força, engoli as lágrimas, disse que por você nunca mais choraria. 
              Inocência minha. 
              Minha mente te trouxe de volta em sonho e hoje escrevo para tentar reviver o que ainda tenho de você em mim. Queria te eternizar de qualquer forma, esquecer as palavras duras, as coisas que doeram. Guardar em mim os nossos momentos bons, os momentos que eu pensei que nunca iria querer deixar sua casa – e você. Os momentos que você olhava pra mim e dizia o quanto eu era bonita, os momentos em que eu me declarei baixinho enquanto você dormia, porque não tinha coragem de me rasgar por inteira e te contar que dentro de mim só tinha você.
    Queria voltar para quando eu ainda não sentia tanto, porque hoje, meu bem, eu sinto muito.

    - Em tenebris

    23.11.18

    Time is gone



                    Depois de tantos meses, pela primeira vez me permiti sentir sua falta. A data marcada no calendário me incomodou e me fez enxergar que o tempo, tão rapidamente, passou. Pergunto-me se você também se lembrou, se pensou em mim, se pensou em nós.
                    Eu estava montando a árvore de Natal, ouvindo as mesmas músicas natalinas de sempre, neste dia do ano que eu tanto amo... E, que tanto amei dividir com você durante todos os nossos dias. Enrolada em meio às fitas, enfeites e luzes, querido, pensei em nós. Em mim. Em um ano antes e em como minha cabeça viajava além pensando no dia que faríamos isso juntos, em nossa casa, com nossos filhos e um cachorro – porque era o número máximo de animais que você aceitava ter. Perdi-me em pensamentos e senti o peito apertar, pela primeira vez depois de tantos meses.
    Pergunto-me se você também lembrou. Ou, se algo na rua te fez lembrar, talvez durante a semana ou em qualquer outro momento, que hoje éramos para estar felizes, comemorando e prometendo. Fazendo planos para o ano que viria. Nossa promessa era sempre nós, você ainda se lembra?
              Pergunto-me se em todos os sábados você também sente vontade de voltar naquele restaurante, mas desiste ao lembrar que só íamos juntos. Penso se você ainda se lembra dos pequenos detalhes, das vezes que lavamos louça juntos numa tarde de domingo, nos sujamos com a espuma e nos beijamos depois, rindo. Das vezes que dormimos abraçados no sofá, das vezes que chorei ao te contar qualquer coisa – porque eu sempre pude te contar qualquer coisa. Queria saber se você sente saudades do Zeca, se pensa na minha avó, se eu ainda sou mencionada nos almoços de família.
               Depois de meses, pela primeira vez me permiti sentir sua falta.  
              Coloquei para tocar aquela música que eu sempre disse ser nossa, e que você sempre insistiu que não era. Sendo ou não sendo, ela sempre me fez pensar em você.  
    Mesmo depois de três anos, eu ainda consigo te ver cantando as letras dela pela primeira vez pra mim, naquele telhado, com aquelas pessoas. O escuro da noite caindo sobre nós e a certeza de que eu tanto te amava pesando em meus ombros.
                Depois de tantos meses, pela primeira vez chorei por nós.
               Chorei por perceber o que nos tornamos. Quem nós éramos, e como o nosso nós tão facilmente se foi.
              Sempre pensei que fosse passar o resto da minha vida ao teu lado – viver sem ti nunca fez parte dos meus planos. Tá... Tudo bem, hoje enxergo o quanto sei andar com minhas próprias pernas, mas a árvore montada e a certeza do primeiro Natal sem você depois de tanto tempo... Os acordes daquela música... Simplesmente me fizeram sentir sua falta. Pela primeira vez em meses quis sair correndo até você, te abraçar e te pedir desculpas. Desculpas pelas coisas que nunca fiz, e pelas que eu fiz também.
             Não sei se está bem, se está saindo, vivendo... Não sei se está feliz, triste, cansado. Não sei mais nada de ti, assim como você não sabe mais nada de mim. E, de alguma forma, isto me incomoda. Às vezes queria poder te contar do meu dia, só por contar. Pela força do hábito. Pelo respeito a quem éramos, pelo respeito a quanto eu te amei.
              Pela primeira vez senti sua falta, mas enxerguei que estamos do jeito que devemos estar. Voltei a ser quem sempre fui, e eu espero muito que você esteja satisfeito com quem você é agora. Estamos bem assim, eu aqui e você aí, mas sempre carregarei um pedaço seu, assim como sei que você carrega um meu também.
               Feliz Natal, espero que você esteja bem.
               Eu estou.

    - Em Tenebris

    1.8.18

    Piece of heaven



    Eu estava embaixo d’água quando percebi. O silêncio abafado e a escuridão do mergulho me avisavam o que eu já tinha certeza: eu estava viva. E a única pessoa de quem eu realmente precisava me olhava pelo reflexo na água e sorria, tanto, depois de tanto tempo.

    Depois da tempestade,
    finalmente,
    o
    alivio.

    Sou as palavras que escrevo, sou os sentimentos que sinto, as pessoas que amo, os medos que me afligem, os sonhos que idealizo, as vontades que vivo – e também as que escondo. Sou os lugares que quero ir, os planos que faço, os livros que leio. Sou as lágrimas que escorrem pelo meu rosto, sou o sorriso que vem para curar. Sou o que sou e ponto, e já não há nada para mudar.

    O vento me beijava no rosto, o sol me chamava para dançar. Risadas ecoando ao meu redor e eu estava inteira. Sem mais. Sem acompanhamentos, sem excetos, sem motivos. Eu finalmente estava inteira.

    Com a vida toda diante de mim, sonhos queimando o peito, vontades subindo pela garganta. Gargalhadas ecoando no espaço, cabelos ao vento.

    O mundo é meu, o mundo é meu.
    O mundo é bom.
    E eu sou minha de novo.


    - Em Purgare

    14.7.18

    Entra pra ver...


        Você chegou tímido, na sua. Olhou pra mim, sorriu e sentou. Abriu a mala, tirou os sapatos, pediu um café. Foi entrando como se a casa fosse sua, agia como se conhecesse todos os cantos e segredos - e eu acho que de fato conhecia.
        As vezes me olhava e ria, chamava pra conversar, massageava meus pés, fingia me conhecer desde os primórdios.
        Fiquei ressabiada, desconfiada e até com medo.
        Eu estava certa e não sabia.
        Decidi abrir-me aos poucos, fraquejei confesso. Por quê? Não sei. Eu não queria saber de visita! Sempre me vangloriei por ser feliz sozinha, nunca gostei de mudanças assim tão drásticas.
        Mas você parecia decidido. Queria ficar, não pretendia mudar de ideia. Tinha trazido pijama, colocado a escova de dente ao lado da minha, tirado os sapatos, desligado o celular, escolhido a janta.
        E nem pediu permissão.
        Mas eu cedi.
        Cedi a você, a mim e a nós.
        Perdi o medo, abri os braços, a alma, o coração. Resolvi dar uma chance, resolvi tentar. Tinha cansado da felicidade solitária, uma vida a dois poderia ser boa. Afinal, por que não? As flores do meu coração desabrocharam e eu nunca mais quis saber da seca.
        A primavera parecia linda olhada daqui.
        Unimos forças, demos laços, jogamos tinta nas paredes, reviramos as gavetas das certezas e substituímos todas elas. Conheci novas coisas, criei novos gostos, cansei da mesmice. Quis ser nova, quis ser outra, quis ser tua.
        Fizemos música, promessas, planos, criamos histórias, demos nomes ao que não conhecíamos. Você me deu novas verdades, lições, ideias, pensamentos, vontades.
        Aprendi a ser eu.
        E tudo parecia tão fácil...
        Parecia.
        Estava tudo fora do lugar e eu não me importava.
        Mas não era nem outono e o inverno já tinha chego. As tempestades voltaram e seu coração se encheu de neve. Você ficou frio, distante. Até que de uma hora pra outra levantou, procurou pelas chaves, deixou a xícara sobre a mesa, calçou os sapatos, ligou o celular, arrumou as malas.
        E com a mesma facilidade que chegou, foi embora.
        Me deixando ali, sozinha, com uma bagunça inteira pra arrumar.


    - Em Tenebris

    7.7.18

    A change of heart



                    Eu sou tempestade e você é rio calmo e límpido.
                 Você é tudo aquilo que eu imaginei que eu quisesse, era o certo, o óbvio, o sentido que eu pensei que precisasse.  
                    Eu sou furacão e você é brisa calma e passageira.
        Você é fácil como final de tarde de verão, com o sol beijando nossas peles e o barulho das crianças correndo no quintal. Eu sou noite fria e tempestuosa de inverno. Eu quero correr, gritar, vencer o mundo e ganhar o dia. Você só quer chegar ao final do dia.
       Tudo bem o diferente; tudo bem o oposto. Por todos os nossos dias fomos certos e demos certo. Mas eu achei que seriamos certos por todos os meus dias – e não ter você era inaceitável, improvável, impossível. E olha eu aqui.
       Finalmente podendo ser eu de novo. Como sempre fui.
       Tempestade. Furacão. Noite fria e tempestuosa de inverno.
      Conhecendo gente, desejando outros corpos e pensando que talvez você não existisse em mim tanto quanto eu gostaria que sim.
      Você me salvou. Surgiu quando a tempestade era a maior de todas, a mais sufocante e dilaceradora possível. Quando a escuridão me engolia e eu pensei que não fosse aguentar, quando eu estava perdida, você me encontrou. Você tirou com a mão todos os resquícios de dor que existiam em mim e me mostrou que era possível um amor calmo e sereno. Que era fácil andar de mãos dadas pela cidade e adormecer nos teus braços nas noites de sábado. Eu estava cansada do difícil. E você era o fácil que eu pensei que precisasse.
       E eu sorri. E eu amei. E me entreguei.
      Amei-te tão profundamente que vaga é minha lembrança de um momento em que não te quis todo pra mim, em que não quis entregar-me a ti eternamente diante de Deus e de todos os presentes. Sonhei com o nosso castelo, a nossa casa e com nossos filhos, e, mesmo sonhando sozinha, planejando sozinha, nunca amei sozinha. E o triste é amar sozinha.
      Como acho que você está amando agora.
      Te peço perdão. Humildemente e desesperadamente te peço perdão por não te querer mais. Peço perdão por estar vivendo, e bem, sem você. Como nunca pensei que seria capaz. Eu te amei tanto que o peito chora agudo ao lembrar; mas percebi que pra te amar eu me apagava e, meu amor, eu quero incendiar.
               Finalmente vi que você é rio calmo e límpido enquanto eu sou a mais forte das ondas do oceano. E eu preciso de um amor como eu sei amar - aos gritos, batendo contra as pedras e lutando contra a maré brava.  
              Por anos me convenci de que eu precisava de um oposto para me acalmar. Mas enfim enxerguei que eu não quero me acalmar. Eu quero gritar aos quatro ventos a tempestade que sou. E você acalmava meus ventos e a chuva parava...
      Sempre parou.



    - Em Tenebris

    29.6.18

    Deixa



           Fico me perguntando se sentes minha falta tanto quanto eu sinto a sua.
         Penso se ainda abre minha conversa no whatsapp e fica olhando minha foto como eu costumo fazer. O tempo está passando e eu já não perco infinitos minutos te esperando; já me convenci de que você não vem e não vai ligar.
           Só esta semana já me apaixonei três vezes. Por três caras diferentes.
         Tinha me esquecido de como meu coração gosta de amar livremente, se apaixonando por qualquer sorriso que cruze com o meu. Pelo cara de cabelos compridos da biblioteca, pelo moço tatuado que conheci no caixa do bar, pelo homem alto de óculos escuros que, de certa forma, naquele momento, parecia perfeito para mim. Assim como você foi um dia.
            Talvez ainda seja.
          Fico pensando se algum dia voltarei a conhecer alguém que a orelha seja tão perfeita quanto a sua; que tenha o papo mais encaixável ao meu quanto o teu – e o beijo... ah, o beijo. Na maioria do tempo não me permito pensar em nós. Fecho os olhos e tento esquecer que sei que você está tão enlouquecido quanto eu, correndo de bicicleta de madrugada e se apaixonando por todas que passam pela sua frente. Sei que você negou o carinho que precisava porque o orgulho te consome e te beija o rosto, e penso que no fundo você está tão triste quanto eu.
            Duas semanas.
        Duas semanas foram o suficiente para causar este terremoto todo. Somos furacão. Somos tempestade. E você é tão noite fria de inverno quanto eu.
          Não sei por que tua falta me dói tão agudo no peito. Tua loucura, tão compatível à minha, nos mostrou que juntos não podemos ser nada. Somos impossíveis. Doloridos. Não tem como funcionar. Mas, lindo, eu juro: sinto tanto a tua falta que às vezes a vontade de atravessar teu orgulho é sufocante.
          Sinto falta das nossas brigas, dos teus ciúmes, da tua voz. Do teu toque áspero, do teu abraço asfixiante e de sentir na tua pele que você precisava de mim tanto quanto eu precisava de você. Sinto falta da tua risada, e de te contar minhas piadas bobas que, diferentemente de todos os outros, eu sei que você sempre gostou. Sinto falta das nossas longas conversas de madrugada e, meu Deus, sinto falta até mesmo da sensação de ressaca no dia seguinte.
            Ressaca por ter passado a noite inteira embriagada de você.  
          Fico me perguntando se sentes minha falta. Se ao menos se lembra de mim. Porque, lindo, eu sinto. Eu sinto muito (por tudo). E é desesperador. 

    - Em Tenebris.

    28.7.15

    You can come out and see me


       Hoje deu vontade de escrever para você. Não como antes, mas de forma verdadeira. Hoje eu quis lembrar de tudo do jeito certo, com os olhos certos.
       Lembrar de como você ria da minha cara, me puxava pelo braço e me maltratava sem eu perceber. E eu achava que era amor. Achava que você estava cuidando de mim, desejando meu bem. Lembro quando você foi embora e deixou tudo para trás. Eu, nossa casa, nossas coisas, nosso nós. E eu tive que me reconstruir. Arrumar as malas bagunçadas, tirar as meias do chão, jogar fora teus restos e lembrar como é ficar sozinha.
       Eu tive que começar do zero, enquanto você seguia em frente sem olhar para trás.
       Precisei enfrentar o frio, a chuva, as flores murchando e o mundo girando cada vez mais rápido, sorrindo e dizendo que estava tudo bem. Tive que aceitar o não que eu sempre tive, mas me recusava a enxergar.
       Tive que te ver de braços dados com outra, rindo e brincando de forma que você, nem nos meus melhores e mais profundos sonhos, soube fazer comigo. Tive que caminhar sozinha, numa trilha longa e tortuosa, repleta de fotos nossas rasgadas pelo chão, noites sem dormir e queixos batendo, no rigoroso inverno que entrava pela janela, e corpo nenhum para me esquentar.
       E eu ainda amava você. Achava que sim.
       Eu acreditava que o que tínhamos não podia ser outra coisa, que não amor.
       Sorte a minha ter conhecido alguém para me arrastar de tudo aquilo. Me tirar das noites afundadas em bebidas caras e garrafas vazias, lábios desconhecidos e corpos sujos. Cigarros que queimavam meus dedos, olheiras mais fundas que as profundezas em que acharam o Titanic e coração fechado para quem quer que fosse.
       Que sorte a minha.
       Quem diria que aquele mar escuro e tortuoso viraria rio limpo e passageiro... Aconchegante, com toque, pernas entrelaçadas, risos soltos, abraço com cara de abrigo.
       Eu estava por um fio. E então, virei novelo. Virei tricot, virei plural. Entendi que o que tínhamos era feio, pobre, frio. Falso. E que você não era, nem nunca foi, quem eu achei que fosse. Você não era o amor da minha vida. Não era o único, nem o último, graças a deus.

    - Purgare






    22.12.14

    Presa no céu



        Não consigo pensar numa época em que as palavras não tenham feito parte da minha vida. Não lembro de um momento no qual escrever não tenha sido minha primeira resposta para algo. Talvez seja por isso que o desespero me inunda quando as palavras não pulam para o papel e transcrevem o que a mente e o coração berram tão aflitos. Domênico Massareto disse que o inferno é intransferível e individual, e esse é meu inferno - um deles. Talvez o maior.
        Meu inferno é não enxergar através de uma folha em branco. É não ver as palavras formando frases num piscar de olhos. É o silêncio de uma mente que grita.
        Às vezes tenho medo de quebrar e nunca mais escrever algo novo que me agrade.
        Disseram-me que essa angústia é apenas um bloqueio de criatividade, que num momento qualquer - durante a aula, por exemplo - ela voltaria, como se nunca tivesse ido embora. E aqui estou eu, no meio de uma das minhas aulas preferidas, escrevendo no canto do caderno sobre meu triste bloqueio.
        Seria este um desbloqueio?
        Escrever sobre a falta de criatividade é recuperá-la? Pa-ra-do-xos.
        A razão disto tudo talvez seja minha "felicidade". Talvez eu não esteja escrevendo justamente por estar feliz, e eu já disse antes que felicidade não põe pão na mesa e por isto não aprendi a falar sobre ela. Mas, se for assim de fato, prefiro morrer de fome.

     
    - Em Purgare 

    20.10.14

    Acts like summer and walks like rain


       Ele riu baixinho enquanto eu apagava o cigarro na areia naquela madrugada fria. A música tocava alto e todos os tipos de corpos e cheiros rondavam meus sentidos, provocando minha carne que um dia foi fraca; seus cabelos lisinhos voavam contra o vento e me faziam rir como nunca antes... O mundo exterior já não me importava.
        Eu, de tão famoso coração inquieto e cigano, pela primeira vez em sabe-lá-quanto-tempo respirava tranquila e não conseguia desviar os olhos de alguém. Custava-me acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, e vez ou outra eu até olhava em volta, procurava em outros corpos qualquer mínimo sinal de que meu eu são e consciente ainda era capaz de querer o desconhecido. Mas, infelizmente - ou felizmente -, encontrei-me procurando por ele em todos os outros e, sem sucesso na busca, sorri ao constatar que ela era inútil, afinal, o que eu queria estava bem ali em minha frente, com os cabelos voando, sorriso tímido no rosto e dedos aflitos segurando meus dedos aflitos. E naquele momento eu quis fugir inúmeras vezes.
        Quis fugir porque eu sentia medo por não estar sentindo medo nenhum. Sentia medo por estar em paz e sorridente. Sentia medo por não querer de fato fugir. Sentia medo por querer ficar e ficar e ficar. Sentia medo por estar feliz.
        Eu há tempos estava cansada de barulho e ele é silencio. Silencio rápido e despreocupado. Silencio sem ser silencio, que chegou brisa de inverno e aqueceu como vento quente de verão.
        O mar nos olhava e sussurrava palavras bonitas, e eu o via sorrir porque ele também estava ouvindo o que eu ouvia. O vento empurrava seu cheiro contra meu rosto como se não quisesse que eu o esquecesse por segundo algum, mas mal sabia o vento! O estrago já havia sido feito... E não existia caminho de volta. Mesmo se existisse! Eu não ousaria olhar para trás jamais.
        A urgência que eu senti todas as vezes em que ele tocou minha pele valia mais que qualquer outra coisa, mais que quaisquer outros toques, lábios, cheiros, peles. Na esquina de seu pescoço com o ombro foi onde encontrei meu cheiro preferido. Nas suas mãos encontrei abrigo e seus olhos seriam capazes de afogar-me mais rápido que qualquer um dos oceanos. Eu, sempre tão morta de medo de morrer afogada, hoje não aguentava de vontade de mergulhar e nunca mais emergir.


    - Em Purgare

    30.9.14

    Rótulo positivo de coisas ruins


        Vamos sentir porríssima nenhuma juntos? Parece-me muito interessante.
        Acalme-se, não vou sentir muito mais do que vontade da tua pele na minha novamente. Prometo nem passar perto do coração. Desviarei todos meus caminhos sentimentais ao sentir teu cheiro leve de cigarro, mas não posso confiar em meus instintos se mostrar-me tuas tatuagens novamente. Ainda ouço tua risada calma ao constatar que meu batom vermelho tinha ido embora e, confesso, poderia repassá-lo inúmeras vezes para dar-te o prazer de tirá-lo novamente.
        Não se preocupe comigo, meu bem. Sou tão livre quanto você e estou acostumada com idas e vindas de um cafajeste quase solitário. Aprendi a lidar com cada um de vocês. Cada qual com sua bebida preferida e jeito de me conquistar. A sua? Whiskey, apesar de aceitar algumas doses de tequila. E o jeito de me conquistar? Difícil. Talvez as tatuagens, a voz de timbre forte ou o toque quente e preciso. Você não tinha dúvidas e sabia muito bem o que fazer. Tua fumaça de cigarro não me incomoda, pelo contrário. Ela tem cheiro de uma segurança familiar que muito me atrai.
       Também não me responsabilizo. Você quis entrar nessa assim como eu quis. Talvez a sorte esteja em nosso favor, talvez os caminhos deem certo para que nada dê errado e tudo continue na mais precisa casualidade.
        Vou esperar-te com a mesma ansiedade da última vez. Quero ver-te com a mesma vontade de antes. Leve um maço de cigarros e um isqueiro que você enxergue a cor. Sem hora marcada, sem complicações, sem medo. Vamos encontrar um escuro calmo e sem interrupções, poderemos terminar tudo aquilo que não terminamos antes. Temos todo o tempo do mundo. Não vamos deixar com que ele se esgote.


    - Em Purgare.

    23.9.14

    You're my disease


       Cada uma de suas pintas em comunhão com minhas cicatrizes. A neblina de cigarro sobre nossas cabeças e o cheiro de álcool impregnado no quarto. As paredes movimentando-se com a mesma frequência de nossos corpos colados e suados; barulhos baixos e sufocados ecoando no vazio daquela noite sem fim. O tempo tinha parado.
        Ainda posso sentir seu cheiro misturado ao meu - três banhos não foram suficientes para tirá-lo de mim, apesar de ter sido o bastante para eliminar o cheiro de cigarro. Mesmo depois de polir, esfregar e esfoliar cada centímetro do meu corpo, eu ainda cheirava à você. Cheirava à noite passada, às lágrimas aflitamente derramadas e à dor tão duramente sentida.
        Mais uma vez, a embriaguez não me permitiu negar-te e, como de praxe, deixei cada uma das minhas vontades mais reprimidas soltarem as asas e gritarem teu nome. O escuro da noite passada agora me atormenta, e os flashes apagados de memórias incertas e descrentes correm pela minha mente enquanto eu acendo o terceiro cigarro da última hora na esperança de apagar-te de mim.
        Ainda não aprendi a amar-te com calma. Encanta-me amar-te às pressas, com a vontade e coragem de um guerreiro; não sei mais amar-te no silêncio, no escuro. Minhas veias estouraram de tanto aguentar teus toques fortes e grosseiros.
        Você ainda é meu erro mais certo e, meu deus, estou farta de errar.

    - Em Tenebris

    2.9.14

    I can't stop reading our story



    Maio de 2019.

        Faz tempo que não escrevo sobre você. Talvez isto seja consequência do tempo que passou... E como passou! Passou e nós mudamos. A faculdade acabou, namoros foram e voltaram e você continua aqui dentro... Pouco, mas continua.
        Lembrei de você depois de anos, numa tarde qualquer, enquanto olhava para um garoto branco feito leite atravessando a Av. Paulista. Louro, nada alto, magrelo. O teu completo oposto. Tua versão negativa. Mas me lembrei de você e acredito que o motivo disto é a minha reprimida insistência de te guardar em mim e para mim. Em segredo, escondo em cantos distintos do meu corpo detalhes teus, e eles reaparecem assim, numa tarde chuvosa de quarta, enquanto vou para o trabalho. Ou em uma sexta quente, enquanto tomo um bom café na Fnac. O ponto é que nem cinco anos depois, aqui em São Paulo, deixo de me lembrar de você em momentos pequenos e rápidos. Assim como era em Maringá. Assim como era em Londrina. Assim como seria em qualquer outro canto deste mundo.
        Eu tinha dezessete anos quando te amei e hoje, aos vinte e dois, entendo que ele não foi embora por completo. Tenho certeza disto quando sinto teu cheiro em outros pescoços ou ouço teu riso em outras bocas.
        Você provavelmente não se lembra - assim como eu em teu lugar não me lembraria - mas gosto de pensar que no fundo você guarda a lembrança de uma garota insistente que por muito tempo não te deixou em paz. Tanta coisa mudou... Não te vejo há anos e mal sei que caminho tomou. Não se sei cursou medicina ou engenharia. Se cortou o cabelo e se fez a tatuagem que tanto queria.
        Fiz questão de te apagar da minha vida quando deixei nossa - mais minha do que sua, devo ressaltar - cidade cinco anos atrás. Pena que não consegui te apagar dos meus sonhos nem dos meus devaneios mais criativos. Percebi que o tempo passou mas não levou com ele minha vontade de beijar cada uma das tuas cicatrizes...
        E não há trânsito, chuva, teatro, favela, paulista ou qualquer outra coisa que me impeça de pensar em como eu estaria mais feliz se estivesse nos teus braços quentes e confortáveis, do que aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.
        Criolo estava errado, não é só em São Paulo que não existe amor.
        Sem você não existe amor em lugar algum.

    - Em Tenebris

    24.7.14

    Pourtant quelqu'un m'a dit que tu m'aimais encore


        Você sabe que eu odeio tua pirraça e por isso abusa tanto dela. Sabe que eu detesto quando você fala grosso e me deixa reclamando sozinha. Que eu não suporto teu perfume com cheiro de zoológico porque ele faz com que eu me sinta engolida por um gorila toda vez que você me abraça. Que tua mordida me deixa roxa por semanas e que eu não gosto quando você encosta demais no meu pescoço.
        Você sabe que eu detesto tuas amigas e quando elas comentam nossas fotos. Odeio também quando você não curte as minhas e vem reclamar que minhas roupas estão muito curtas. Tenho raiva quando você me faz esperar e quando vem em casa me pedir desculpa todas as vezes que a gente briga. Você podia simplesmente parar de brigar comigo. Ia te poupar muita caminhada.
         Odeio quando você não vai às festas comigo e odeio mais ainda quando você vai em festas sem mim. Odeio quando me liga bêbado e odeio não conseguir não te atender simplesmente. Odeio tuas meias no meio da canela e odeio quando você usa chinelo. Nunca gostei dos teus pés. Ou das tuas pernas. Ou de você inteiro.
         Detesto, na verdade.
         Cada parte de você.
         Teu cabelo que nunca está bagunçado e tua força sobrenatural, que me tira do chão com um braço só e me joga no sofá sem qualquer esforço. Teu sorriso tímido e seu jeito de rir. Às vezes você respira rápido demais e às vezes parece que nem respira. Odeio quando você faz isso. Sempre acho que vai morrer ali, bem na minha frente.
        Odeio quando você fica perto demais de mim, tanto que parece que vai me esmagar. Odeio quando você passa teus braços em meu pescoço e não me deixa sair de perto. Odeio quando você fica longe por muito tempo, some, faz merda e volta como se nada tivesse acontecido.
        Odeio seu jeito de lidar comigo. Odeio quando você é chato e odeio mais ainda quando você vem cheio de amor. Detesto quando você não entende minhas entrelinhas e foge fingindo que não me ouviu... E você sempre faz isso: sempre finge não entender o tudo que eu vivo te dizendo, o nosso tudo. Que tuas mãos se encaixam perfeitamente nas minhas quando eu tenho medo, que o tremor das tuas costas me faz dormir melhor e que teus beijos de despedida doem no fundo do meu corpo, como se tirassem o melhor de mim e levassem consigo. Mas eu não me importo mais.
        Estou acostumada com tuas idas e vindas, com teus esporros, com tuas frases curtas e tua falta de olho no olho, mesmo sabendo o quanto eu gosto disto.
        Você nunca fez questão de nada que eu goste...E, por fim, você nunca fez questão de nós.


    - Em Tenebris

    14.7.14

    Queria não ter mais palavras sobre você

    A triste verdade é que todos nós estamos sentindo a falta de alguém. 
    E esperando que não importa onde eles estejam, eles estão sentindo nossa falta também.

    Às vezes eu acho que vou enlouquecer se passar mais um dia longe de você.
    Mas quando foi que eu estive perto?
    Nunca estive. E este é o maior dos problemas.

    Isto não é um poema, não é uma crônica, nem um conto ou uma carta. Não sei o que é.
    É um reflexo borrado do pouco de ti que ainda resta em mim: uma cópia perfeita da confusão que se estende em meus rios internos há anos e custam em tentar te afogar.

    Sinto tua falta como se tivesse estado do teu lado algum dia. Sinto teu cheiro nos outros como se eu conhecesse o aroma. Sinto a falta dos teus dedos nos meus como se isto já tivesse acontecido antes. Sinto tua falta como se um dia você tivesse sido meu.
    E não foi. Nunca foi.
    Não é agora que vai ser.

    Pensei não ter mais palavras sobre você.
    Parece que eu sempre vou ter.

    Cinco anos não foram suficientes.
    Nem mais mil dias serão.
    Você é o mais bem construído de todos os meus personagens. De longe o que mais amei. Risos. Falar "de longe" quando o assunto é você me parece irônico, sarcástico. Praticamente uma metalinguagem da nossa história: falar dela dentro dela. Ou então agora, onde estou dizendo apenas uma parte de todo o nosso todo: metonímia. E lá venho eu... falando de figuras de linguagem de novo, justo as que você sempre odiou.

    Tenho um "quê" psicótico por tudo e qualquer coisa que você um dia tenha odiado.
    Tenho um "quê" psicótico por você. Ainda tenho.

    Me pergunto se ainda se lembra.
    Se lembra do meu nome e dos meus cabelos enroladinhos.
    Você costumava gostar deles. E de mim.

    Muito tempo se passou, eu sei. Não te peço nada. Ou peço tudo, não sei.
    Às vezes me imagino em Jacarepaguá, sim, ainda.
    Mergulhada em teus bracinhos, cantarolando aquela música para ti.
    Mas agora estou em Maringá, mergulhada em minhas lágrimas saudosas, cantarolando aquela música para mim.

    Essa é a maior de todas as minhas escuridões.
    Fazia tempo que não escrevia para você.

    Que saudade de ti, Raphael.

    - Em Tenebris

    9.7.14

    Kept breakin' promises you said you keep


      Queria entender o que senti por ele e por que sua falta me dói tão agudo no peito. Desde que o deixei venho tentando compreender os motivos que me levaram à estender tanto essa nossa estória bagunçada, tentando decifrar o que meu coração tanto pede e se é por ele que grita desesperadamente no meio da noite. Se os espasmos de saudade são frutos de um sentimento bom ou ruim, porque você sabe... Às vezes sentimos saudade de algo que nos fez mal.
       E ele me fez muito mal.
       Mal por ter me tratado como se eu não fosse boa ou sequer capaz de um dia ser. Mal por ter me abandonado tantas vezes e voltado como se nada tivesse acontecido. Mal por ter me feito acreditar que para ele eu nunca seria boa o suficiente ou, pelo menos, não tão boa quanto todas as outras.
       Me custa acreditar que com ele eu pude ter sido tão fraca, e que agora volto à balançar na corda bamba que dá direto para o colo em que por tanto tempo dormi e fingi ser feliz. Ter feito as malas e virado as costas de nada adiantou e eu só sei disso agora, porque antes o desespero me fez crer que essa era a melhor coisa à fazer.
       Amá-lo nunca foi fácil; sempre foi cheio de chagas e cicatrizes que o ajudavam a enterrar o pouco de clareza que vivia em meio à sua escuridão. Escuridão que nem por um dia dos nossos 376 ele se sentiu livre para deixá-la escapar. Escuridão que engoliu toda a parte boa do seu ser e que nos privou de tantas coisas boas que poderiam ter acontecido durante todo esse tempo.
       Acredito que sua alma dura e dilacerada seja o principal fator para que eu o tenha amado tão profundamente. Que minha vontade de salvá-lo é equivalente à saudade que sinto dele e dos frágeis momentos bons que vivemos... Como quando ele costumava enrolar seus dedos compridos e magros em meus cabelos e dizer que gostava do meu cheiro.
       Me pergunto se ele ainda gosta dele e de mim, ou se algum dia realmente chegou a gostar. Mas não como eu sempre gostei dele, porque o que senti era bem mais profundo do que somente gostar.

    - Em Tenebris

    27.6.14

    Azulejos


       Zé, hoje descobri porque eu e ele nunca demos certo.
       Não foi porque ele usava aquelas meias xadrez ou comia toda a borda da pizza. Nem porque me mandava mensagens ansiosas e inseguras todos os dias. Foi por causa do banheiro dele, Zé.
       Não! Não era sujo ou fedido, pelo contrário: era limpíssimo, mais do que o seu jamais foi. O problema eram os azulejos... Eles eram da cor exata dos teus olhos, Zé. Toda vez que eu entrava lá deparava-me com uma parede repleta de olhos teus... Justo eles que sempre foram a minha maior fraqueza.
       Isto me entristeceu, sabe? Tudo estava bem e parecia que minha vida ia enfim largar o rumo da tua. Fazia tempo que sequer me lembrava de ti e mal abria nossa conversa no whatsapp. Mas eu sempre soube que teus olhos azuis seriam a razão da minha ruína. De alguma forma, em algum momento, isto iria acontecer e o romance que eu acreditei que salvaria minha vida acabou por causa dos teus malditos olhos cor do céu.
       E cor dos azulejos dele.
       Zé, voltei à estaca zero. Não aguentei um mês te encarando naquele banheiro e não usá-lo simplesmente não era uma opção. Afinal, aqueles azulejos me passavam tranquilidade quando o outro me irritava com sua mania de elogiar absolutamente tudo o que eu fazia. Certa vez tranquei-me no banheiro por meia hora e fiquei ali, encarando teus olhos e torcendo para que você estivesse do outro lado da porta quando eu saísse.
       E aquela foi a minha última noite com ele.
       Deixei o banheiro com despedidas curtas e nunca mais retornei ou atendi suas ligações.
       Hoje, Zé, estou deitada em minha cama, encarando as estrelas do teto que você costumava odiar e me perguntando onde esta saudade de você vai me levar. Hoje foram os azulejos, no outro mês foi a risada e no antes deste a mania de estrelar os dedos. Qual será o próximo?
       Me diga, Zé. Por favor, olhe em meus olhos e me responda, sem titubear ou me encher de enrolações, me responda: quantos caras mais eu vou deixar por terem algo que me lembra você?

    - Em Tenebris

    6.6.14

    Não é mais cedo



       Hoje eu me lembrei dele. Sem rancor, saudade, raiva ou tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, enfim, o tempo passou. Não o vejo há meses, quase um ano. Desde nossa última briga e do final cheio de gritos e palavras feias. Não sei como está seu cabelo, suas roupas, suas mãos que eu tanto gostava, seu sorriso que me tirava o sono. Não sei se está bem, se está namorando, se está mal, se está vivo. Ele desapareceu da minha vida, assim como eu desapareci da vida dele.
        Se eu dissesse que um dia acreditei que duraríamos pra sempre estaria mentindo. Desde o primeiro beijo eu soube que não duraríamos mais de três meses. Ele era hiperativo demais, rápido demais, louco demais. Mas era engraçado insistir no que eu sabia que não ia dar certo. Era divertido, excitante. É egoísta da minha parte, confesso e reconheço, mas não passa da verdade.
        Eu nunca quis nada com nada. Não com ninguém, mas com ele em especial. Tinha defeitos demais, manias demais, diferenças demais e eu não estava disposta à me adaptar.
        Nunca estive.
        Admito que fiz o que queria dele. De certa forma precisava sair por cima de alguma história alguma vez. Estava tão cheia de me arrastar atrás dos outros e mendigar por amor que queria pelo menos uma vez estar do outro lado. Queria fazer sentir o que já haviam me feito sentir antes e hoje sei que não me arrependo. Em um caleidoscópio de memórias me lembro de tudo o que passou... Confesso que me esqueci de muitas coisas. Palavras perdidas, sentimentos esquecidos, incertezas e cenas escuras, mas me lembro de algo. Me lembro dos nossos beijos afobados nas ruas escuras, as músicas altas, o cheiro de cigarro que não saía de mim.
        Lembro das juras infinitas, das promessas, das vontades. Mas também lembro da dor. Da prisão em que me trancaram por dez dias e os olhos aflitos e arrependidos dele. Ele não sabia que eu estava ali por causa dele, mas cuidava de mim como se soubesse. Como se soubesse segurava minhas mãos, beijava minhas têmporas e dizia que tudo ia ficar bem.
        Nunca mais nos escrevemos; não havia mais o que dizer. Tudo já havia sido dito, mesmo que de forma tão errônea e precipitada. Cheguei a saber por um certo tempo quem ele era de verdade, mas me entristeço ao saber que ele nunca tomou conhecimento de quem eu realmente sou e era. Hoje, se o encontrasse na rua, custaria à reconhecê-lo, mas também não faria questão disso.

    - Em Purgare                        

    11.5.14

    The one I will always love - Dia das Mães


        Esse texto é uma ode à minha mãezinha, dona Eliana, tão pura e incomparável que temo não saber usar das melhores palavras para me dirigir à ela.

        Tenho dezessete anos e muitas caraminholas na cabeça. Muita vontade de crescer e fugir e sonhar e concluir e ir atrás e ser alguém na vida um dia. Meu pai aplaude e impulsiona, já a dona Eliana...
        Ela não gosta disso. Quer dizer, gosta até onde eu moro com ela e não vou embora jamais, assim que essa linha é cruzada a história já é outra! Vive me rodeando de preocupações: "morar sozinha? em São Paulo? Ah não... Londrina é aqui pertinho!"; medos: "você vai ter que dividir apartamento com alguém!";  ameaças: "você tem que me provar que tem juízo!"; incertezas "não sei se isso vai ser bom..."; súplicas: "como vou fazer pra te visitar de 15 em 15 dias? Não dá! Tenho seu pai e seu irmão aqui, eles fazem bagunça, não posso deixá-los!"; chantagens emocionais: "você não gosta de mim né? Pode falar! Você não me ama!"; provocações: "mas você nem sabe cozinhar! Não sabe lavar roupa! Não vou estar lá pra fazer strogonoff pra você!". Mas mal sabe ela...
         Mal sabe ela que ao mesmo tempo que eu morro de vontade de alçar voo, fico aterrorizada só de pensar em ficar longe dela, da panqueca que só ela sabe fazer, do colo que só mãe tem, das nossas tardes juntas, de irmos ao cinema, de dividir as fofocas, de reclamar da vida e até de brigar com ela. Não há ninguém no mundo como a mãe da gente. E, cá entre nós, não há ninguém no mundo como a minha mãe.
         Ela é tão ela que as vezes até me irrita. Tão calma, meiga, querida, dedicada, esforçada, preocupada, engraçada, divertida... Tão mãezinha, tão indefesa, que tenho medo de me jogar no mundo e deixar ela para trás. Quando eu for embora, quem vai ficar pra falar dos homens bonitos da novela e da cidade pra ela? Quem vai lavar a louça de domingo e varrer a casa? Quem vai assistir filme com ela? Quem vai abraçar ela por cima porque por baixo não dá mais? Quem vai pegar emprestado as roupas dela? Ela vai pegar emprestado as roupas de quem? Quem vai comprar sapatos com ela? Pra quem eu vou contar das minhas inúmeras paixões?
         Vou ter que te levar comigo, mãe.
         Te levar comigo para todo e qualquer lado que eu vá. E essa é com certeza uma das minhas maiores vontades. Pena que não dá pra morar junto pra sempre, né? Um dia vai chegar a hora de crescer. Mas, mãe, sua presença na minha vida nunca vai deixar de ser importante. É impossível que um dia esse amor tão imensurável diminua ou deixe de existir. Perdoe o clichê, mas sei que às vezes não sou a filha que você tanto merece. Sei que falo demais e às vezes de menos. Que gosto de chocar e ir contra as vontades do mundo, que sou preguiçosa e troco muitos momentos importantes por um bom tempo dormindo... Mas isso não importa e não muda nem uma vírgula do que eu sinto. Nem hoje, amanhã ou em tantos anos.
        Você é meu exemplo de força e de coragem. Esteve do meu lado em absolutamente todos os momentos, sempre disposta a me mostrar o melhor caminho. Me dá sempre esperança de que um dia melhor vai chegar, que "o que é meu tá guardado", me proporciona uma paz que ninguém mais pode dar, é meu espelho, meu exemplo, meu porto seguro. Sempre tão decidida e disposta a fazer o melhor para aqueles que ama, sem se importar com o que te vai custar. Talvez ser mãe seja sobre isso, sobre doar uma parte de você pelo outro, e espero um dia ser uma mãe tão maravilhosa quanto você, tão inteligente e cheia de qualidades.
        Você é incrível, mãe. A melhor de todas.
        E eu te amo mais do que cabe em palavras.
        Feliz dia das mães, mãezinha.

    - Em Purgare


    4.5.14

    This is the end of the road for us


        Quando você foi embora eu te avisei que seria a última vez. Que não adiantaria o que quer que você fizesse ou viesse me dizer, eu não mudaria de opinião. Prometi pra mim e para quem quisesse ouvir que eu e você não existiria mais. Nem hoje, amanhã ou em um milhão de anos.
         Não enquanto você continuasse sendo o mesmo cara de sempre.
         Quando você se foi e disse que comigo não dava mais, eu pela primeira vez concordei. Pela primeira vez  em um ano e tantos meses admiti que insistir na nossa história é como esperar chuva na seca, e não estamos em um filme adolescente onde esse seria exatamente o momento em que começaria a chover sobre nossas cabeças. Me conheço bem o suficiente para dizer que eu não esperava um dia tomar essa decisão, esperava te empurrar pela minha vida por muito tempo ainda, afinal, você sabe que é muito do meu tipo acreditar no teu melhor sempre e nunca desistir... Mas também te conheço muito bem, meu bem, e é exatamente por isso que sei que esse é o nosso fim. Você nunca foi capaz de mudar, nem por mim, por você ou qualquer outra pessoa, e não vai ser agora, justo agora, que você vai enfim conseguir.
         Nem se você mudasse.
         Nem se chovesse sobre nós agora.
         Tudo uma hora chega ao seu fim, e esse é o nosso. A quem queremos enganar? As reconciliações já não adiantam mais há um certo tempo, e as brigas prevalecem muito mais. Teus defeitos, que antes eram invisíveis aos meus olhos, hoje são insuportáveis e um passo meu fora da linha já te é suficiente para virar as costas e ir embora. Você volta, sempre volta, mas sempre com um sorriso a menos e um ciúme a mais.
         Talvez nós apenas tenhamos nos dado uma chance na hora e na época errada. Talvez daqui anos vamos ter paciência e amor o suficiente para começar de novo, e então tudo será lindo e cheio de cor como era no começo. Sem mais brigas, gritos, desconfiança e provocações. Do mesmo jeito que começou, cheio de vergonhas e desejos ininterruptos. Sem muita intimidade mas tanta vontade...
         A gente se gostou muito um dia. Te amei, quase. E ainda te gosto tanto... E é por isso que estou indo embora. Pra não acabar com o respeito e carinho que ainda tenho por ti. Talvez mais tarde, talvez depois... Mas não hoje.
         Não mais.

    - Em Purgare
      

       

    22.4.14

    Once I thought we could make it through


           A gente tem que parar de fingir que damos certo juntos... Nós sabemos que não. Já cansamos de terminar e voltar e tentar dar mais uma chance pra toda essa história e fingir que está tudo bem. Mas, meu deus, não é assim. Infelizmente.
           Ontem tomei dois banhos depois de tudo; queria tirar teu cheiro do meu corpo. Precisava apagar toda e qualquer memória sua naquele momento, mas foi em vão completo. Você estava marcado em mim há anos, assim como teu cheiro, a marca dos teus dentes, tuas unhas, teu calor. Já era tarde demais pra conseguir apagar, e eu sei disso.
          Sei disso agora, porque não sabia antes. Não sabia do efeito que me causavas, muito menos de como eu gostava disso. Nunca quis tanto tua pele e tua boca na minha. Nunca resisti tanto e fui tão fraca ao mesmo tempo. Eu sabia que havia um motivo pra tudo isso. Para a minha recusa e tua pressa, meu stress e tua calma. Estava tudo escrito.
           Temos que parar de fingir que damos certo juntos, porque não damos, e não adianta continuar nessa tentativa e luta eterna, se no outro dia eu sempre acordo do mesmo jeito: enrolada em tuas pernas e afogada em minhas lágrimas arrependidas, com a certeza de que eu não devia ter feito isso, nem nada, nunca. E sempre levanto quietinha, arrumo minhas coisas, não olho para trás e vou embora, com a mesma promessa de que isso nunca mais vai se repetir. Sem bilhetes, sem café da manhã, sem beijo de bom dia.
           Nós não gostamos de ficar juntos, sejamos sinceros. As horas ficam sempre recheadas de brigas, discussões, desentendimentos e nada vira tudo em um espaço tão curto de tempo. Com você perco a cabeça e o juízo fácil, perco o equilíbrio e até quando é bom você consegue fazer sem ruim. Você consegue me fazer questionar todos os motivos que me levam a não ter desistido de você em todos esses anos. Mas com esse mesmo jeito, você consegue me fazer gostar muito quando tudo está bem.
          Queria acreditar que juntos poderíamos ser sinfonia, movimento, um só. Mas meu amor, há tanto pra me fazer duvidar disso. Inclusive você. Você continua sempre com esse jeito largadão só teu mas que me irrita tanto. Que me faz te odiar tanto, mesmo quando te amo... E como amo. Não dá mais pra ser assim, entende? Não dá mais pra ser assim.
          Hoje acordei com frio, mesmo agarrada em teu corpo. A janela e a porta estavam fechadas, mas eu tremia e batia os dentes. Sentia o mesmo frio que eu sinto sempre que acordo do teu lado. Mas hoje eu percebi que o frio vinha de ti, diretamente de ti para mim. E eu não quero mais isso. Eu quero calor, meu amor.


    - Em Tenebris
           
         
       
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